Desde o momento da concepção foi uma luta. Um óvulo, um espermatozoíde, num dia errado.
Descoberto refugiou no escuro do ventre. Enquanto não me viu. Conformado.
Fui o primeiro mas não o único, filho indesejado. Uma mistura de tudo, meio futuro, meio passado. Depois de 09 meses, nasci num dia, inesperado.
Nasci de novo no parto. Correria no quarto. Em meio a um Sábado. De carnaval, um parto. Parto para a vida, sem recém nascido fotografado. A luta pela comida, pela magreza, pela barriga. Não sou doente. Sou criado, sou largado.
Parti de novo. Segundo parto. Parti pela vida. No ato. Fui correr atrás do futuro. Mais uma batalha por espaço. Fui cair no mundo. No mundo. Me faço.
Terceiro parto. Uma luta por mim e contra mim. Uma luta por princípios, por determinação, por necessidades, afirmação.
Uma luta pela sobrevivência, dia a pós dia. Uma batalha: Um grão. É uma luta contra os pés de galinha de meu pai. Contra a flacidez das coxas de minha mãe. É parte de mim que vem emergindo no meio da lama, do brejo, vegetação.
Não quero mostrar a cultura. Não tenho cultura. Estou no chão.
Aos 500 anos do descobrimento do Brasil.
Retirado de: Jubiléu de Prata -1999/2000- Poesias
Geórgia Manfrin Neddermyer