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Contos-->Um Milagre em Família - Conto de Natal -- 19/12/2000 - 00:26 (Jackson Alencar V. Pires) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
Naquela noite tudo correu às mil maravilhas. Não faltaram os doces e salgados de Dona Irene, nem os famosos coquetéis de Seu Arlindo, empregados mais antigos da casa. Foi uma festa e tanto. Eram mais de duzentos convidados, todos confortavelmente acomodados no suntuoso jardim e no imenso terraço da mansão. Via-se mulheres com belos vestidos, acompanhadas por homens não menos elegantes em seus finíssimos smokings. Enfim, uma noite memorável.

Ao fundo, ouvia-se uma música permanente, tocada de forma magistral por uma orquestra. Fazia calor, mas como a festança era ao ar livre todos se sentiam confortáveis com seus trajes de gala. Para amenizar a quentura do ambiente, bebidas eram servidas em profusão tornando as pessoas mais receptivas e bem humoradas.

Crianças eram muitas, e todas pareciam estar em um grande parque, pulando, correndo entre os adultos sem qualquer inibição. Todas elas, menos Madalena, se divertiam com seus brinquedos entregues por um generoso e desengonçado Papai Noel. Sua mãe, percebendo a tristeza da menina, perguntou qual o motivo de sua melancolia, muito embora ela própria já soubesse a razão.

– Sabe, minha mãe? Dava tudo para voltar a correr com meus amiguinhos. Que adianta meu pai ter me dado uma festa tão linda, um presente tão caro, se eu nem posso sair dessa maldita cadeira de rodas e brincar com eles – respondeu de pronto a menina, enquanto assistia a tudo calada, sem ânimo ao menos para sorrir.

A festa, por sua vez, a cada minuto que se passava ficava mais exultante. As estrelas brilhavam como nunca, realçando ainda mais o seu colorido. Uma gigantesca árvore enfeitada de luzes brancas chamava a atenção pela sua imponência. Para completar, a lua cheia parecia enfeitiçar a todos, convidando-os a bailar. Pobres dos garçons que trabalhavam feito burros de carga, trazendo e levando talheres, pratos e bebidas.

Tudo ia perfeito até que, de repente, ouve-se um rebuliço próximo ao imenso portão de entrada da casa. Imediatamente, um sem número de homens começaram a aparecer de todos os lados, se dirigindo para o centro do tumulto. A música, no entanto, não chegou a parar, e a maioria dos comensais nem sequer chegou a notar o incidente.

– Que diabos está acontecendo aqui, afinal? – perguntou Dr. Carvalho, o anfitrião responsável por aquela noite inesquecível.

– Doutor, este homem quer entrar na festa a todo custo. Perguntei se foi convidado, mas ele não soube dizer. Nem convite ele tem – respondeu um dos leões de chácara.

– O senhor é convidado de quem, meu amigo? Posso saber? E se for, saiba que aqui é obrigatório o uso de traje de gala – sentenciou.

– Por favor, deixem-me entrar, preciso falar-lhes algo. Algo de muita importância. Deixem-me dizer-lhes sobre o verdadeiro sentido da vida – falou o estranho.

– Sentido da vida? Essa é boa. É o que o senhor tem de tão importante para falar aqui, a essa hora? Não sabe que hoje é dia de ficar em casa com a família, comemorando o feriado? Se é que o senhor tem família – ironizou.

– Sim, tenho família, e ela está aí dentro. Minha família são todos vocês. Por favor, permitam-me que fale aos meus irmãos. Preciso lembrar-lhes de uma coisa a muito tempo perdida – suplicou o intruso, sacudindo o portão com certa impaciência, fazendo com que os seguranças o repreendesse.

– Calma, pessoal. Sem violência – ordenou o dono da casa – Não vamos sujar as mãos com esse pobre diabo. Já entendi tudo, moço. É dinheiro para tomar aquela cachacinha ou para fumar um cigarrinho, não é? De qualquer forma, tá aqui vinte, ou melhor, cinqüenta reais para o senhor sair da minha frente. Imagina se um sujeito maltrapilho como o senhor tem alguém conhecido na minha festa. Agora já chega, suma daqui antes que mande meus homens usarem a força.

A estas alturas dos acontecimento uma pequena multidão já se formava no local. Uns riam daquela figura solitária, achando graça no seu modo de falar, de se vestir. Outros, repudiavam-no, afirmando tratar-se de mais um marginal pronto para agir assim que ganhasse a comiseração e a confiança de todos. A meninada também bulia com o homem jogando sobre ele tampas de garrafa, guardanapos sujos e até pedras. A pequena Madalena, entretanto, ao ver aquela cena, gritou para que todos o deixassem em paz, e que parassem com tamanha covardia.

– Não façam isso com esse pobre homem. Ele não fez mal a ninguém. Deixem-no ir em paz.

– Minha filha – exclamou o Dr. Carvalho – que você faz no sereno? Sabe que não pode levar essa frieza. Volte já lá para dentro. Não perca tempo com esse infeliz.

A garota não se fez de rogada. Chamou a atenção do pai para a forma com que tratou o estranho, oferecendo-lhe dinheiro em vez de abrigo; zombando de sua roupa, ao invés de perguntar se ele estava com fome ou sede. Lembrou-lhe da data, do 25 de dezembro, dia do nascimento de alguém especial. Discursando em voz alta, disse para quem quisesse ouvir que não era só ela merecedora daquela festança toda; que outra pessoa muito mais importante também fazia aniversário naquele dia, e que essa pessoa ensinou a amar a todos, a acolher a todos, independente de raça, religião ou classe social.

Dr. Carvalho enrubeceu com tamanho sermão. Não tinha palavras para responder a filha. Sentindo-se envergonhado, saiu atordoado de volta à festa sem pedir licença ou desculpas a quem quer que fosse. Enquanto isso, Madalena, com ajuda dos empregados, se dirigia até o portão para se escusar da atitude do pai.

– Como se chama, menina? – perguntou o forasteiro.

– Madalena. E o senhor?

– Sabia que não devemos afrontar nossos pais? Por quê a menina fez isso? – indagou mais uma vez o desconhecido.

– Não suporto ver alguém maltratando outra pessoa. A propósito, que o senhor faz por aqui a essa hora? Não devia estar em casa, como disse meu pai, com sua família? O senhor tem uma família, não tem?

– Sim, claro que tenho. É uma família grande da qual a menina faz parte, creio. Gostaria de fazer parte da minha família? – perguntou o homem com um leve sorriso no rosto.

– Não obrigada, mas já tenho uma – falou Madalena também sorridente – Sabe, meu pai não é uma má pessoa como pareceu ser. Ele ajuda muita gente, hospitais, pessoas que nem eu....sem serventia.

– Eu sei muito bem quem é seu pai, por isso pedi para entrar nesta casa. Quanto a você, menina – continuou – você é muito mais útil do que muita gente que sai por aí, mundo afora, sem destino, se perdendo nas armadilhas da vida. De que adianta ter força nas pernas, se as pessoa não sabem aonde ir, o que procurar.

– E o senhor? O senhor tem destino? Sabe aonde ir ou a quem procurar? Quem afinal é o senhor?

– Sede – disse o desconhecido.

– Sede? Que nome esquisito – replicou Madalena diante da inesperada resposta.

– Não, claro que esse não é meu nome. Disse que estava com sede. Se a mocinha pudesse arranjar-me um pouco d água, ficaria grato por toda a vida – explicou.

– Claro. Vou mandar buscar a água. Mas antes, por favor, diga-me seu nome. O senhor tem até um rosto familiar. Acho até que já o vi antes.

– Está vendo? Não disse que faço parte de sua família? – sorriu mais uma vez o homem – De certa forma você me vê todos os dias, e eu a você. Mas fique tranqüila. Você terá as respostas para suas perguntas mais cedo do que pensa.

Neste instante, pela primeira vez durante a conversa, Madalena ficou perturbada com a presença do estranho. O que será que ele quis dizer com isso? Por que razão não revelava logo quem era, de onde vinha, o que pretendia ali àquela hora da noite? Imediatamente, pediu a um dos empregados que fosse buscar a água que ele havia pedido. Sem entender bem o que tinha acabado de escutar, esperou silenciosamente a volta do empregado para retornar à festa.

– Pronto. Aqui está. Espero que esteja do seu agrado. Agora com sua licença, preciso ir. Um bom Natal para o senhor e sua família, se realmente tiver uma – falou Madalena olhando firme a fisionomia do homem, enquanto se preparava para se retirar.

– Muito obrigado, filha. Mas antes de ir faça o favor de beber a água deste copo – ordenou laconicamente o desconhecido.

Surpresa com a aquela atitude, sem saber ao certo o que dizer, a garota impacientou-se com a sua inesperada resignação em tomar a água que havia servido.

– Mas senhor – disse – a água eu mandei trazer não foi para mim. Pensei que o senhor estivesse realmente com sede. Olha, se isso for alguma brincadeira de sua parte, saiba que não vejo graça alguma.

– Creia em mim, filha. Beba a água que está nesse copo. Nela sentirá a alegria que a muito tempo você já não sente. E, por favor – continuou o forasteiro – seja sempre essa menina generosa que você é. Lembre-se: todos os dias nós nos veremos, embora não seja preciso que eu venha até o seu portão implorar para que me recebam. Você já me recebeu de braços abertos, e isso é o que importa.

Sem saber o que fazer, a garota segurava o copo com uma mão, enquanto a outra, um tanto trêmula, se apoiava em sua cadeira. Seus olhos incrédulos acompanhavam atentamente o caminhar daquele misterioso homem em direção à rua. Queria pedir para que ficasse um pouco mais. Perguntas e mais perguntas ecoavam dentro de sua cabeça sem encontrar sequer uma resposta. Perplexa, procurou encontrar um significado para aquelas palavras que transmitiam uma certa sabedoria. Sim, uma sabedoria que, no auge da sua inocência, jamais ousou acreditar que alguém a possuísse.

Mas afinal de contas, quem ele era? O que ele queria? Seria, de fato, um sábio ou um louco de pedra a perambular pelos quatro cantos da cidade? Diante do portão da
imensa casa, lá estava ela a contemplá-lo, tentando achar, na água por ele recusada, alguma luz.

De repente, sem que se desse conta, surgiu sua mãe aflita com um guarda-chuva em punho, preocupada com a fina garoa que começava a precipitar-se. Madalena, ainda aterrada com tudo que havia escutado do estranho, assustou-se com a presença repentina da mãe, deixando cair o copo, entornando toda a água na grama do jardim.

Sem saber bem o porquê, a garota desesperadamente se atirou ao chão tentando salvar uma gota que fosse daquele líquido que, de uma hora para outra, passou a ser tão valioso. Vendo que seu esforço foi em vão, ela começou a chorar com se tivesse deixado escapar entre seus dedos o último cantil do deserto.

Em seguida, apoiando-se sobre sua apreensiva mãe, começou uma árdua tentativa de manter-se ereta. Cambaleante, procurou erguer-se de qualquer forma, extraindo forças de onde nunca imaginou encontrar. Neste exato momento, notou que algo estava acontecendo com ela. Sentiu uma sensação que até então jamais havia experimentado, capaz de cessar de imediato o seu choro e de mudar completamente a sua vida, o seu destino.

*****

Não havia um Natal sequer sem que o bom velhinho não estivesse presente. Naquele 25 de dezembro em especial, porém, havia três rechonchudos Papais Noel repletos de presentes. Também tinha muito mais crianças do que o de costume. Só não se via mais tanta gente, comida ou bebida. Não que Dona Irene não tivesse preparado mais uma vez seus maravilhosos quitutes, ou que Seu Arlindo não estivesse servindo seus apreciados coquetéis.

É que neste final de ano, o que se viu, na verdade, foi a chegada de uma primavera temporã. Margaridas, orquídeas, rosas e avencas enfeitavam os jardins. Ao invés das cascatas de champanhe francês, uma singela lapinha decorava o bufê da sala de jantar. A árvore de natal, menor, trazia luzes coloridas, alegrando ainda mais o ambiente. Na festa apenas os familiares mais próximos compartilhavam este maravilhoso momento.

Madalena não parava um instante, sempre acompanhada de seus novos amigos trazidos de uma orfanato próximo de sua casa. Corria e bailava ao som das canções natalinas tocadas ao piano por um tio, enquanto seus pais distribuíam brinquedos entre a criançada. Este sim era o seu aniversário mais feliz, celebrado em um dia tão significativo e comemorado apenas com as pessoas pelas quais ela nutria afeto e carinho.

Na sua cabeça, entretanto, ainda pairava vários pontos de interrogação. O maior deles era: por que eu? Desde que o acidente aconteceu – caiu do cavalo em uma aula de equitação quando tinha de seis para sete anos – que essa pergunta jamais quis calar. Agora, depois de tudo o que se passou, ela torna a aparecer com força maior, mas ainda sem qualquer sinal de resposta.

À noite sempre orava e agradecia pela graça alcançada. Só não sabia a quem agradecer: ao homem que partiu a exatamente um ano atrás sem deixar pista de sua identidade e de seu paradeiro, ou a Deus. Na dúvida, pedia obrigado a ambos como se fossem a mesma criatura.

Quando a ceia foi servida, Madalena resolveu ir até o jardim contemplar aquele céu tão estrelado. Colhia rosas enquanto observava as estrelas. Estas, por sinal, pareciam ter o mesmo brilho do Natal passado. Só que desta vez pôde apreciá-las em toda sua plenitude. E este, sem dúvida, foi o maior milagre acontecido em sua vida. Aprendeu a entender, ainda tão menina, a simplicidade das flores, do pôr-do-sol, da alvorada, do vôo sem destino dos pássaros.

Ah, o destino... Se antes ela acreditava ter sido vítima de seu fado, hoje já não se impressiona mais com as surpresas por ele reservadas. Boas ou más, a pequena Madalena já não mais as teme como outrora, desde que um certo andarilho magro, de barba e cabelos longos apareceu a sua porta, dando-lhe as asas que precisava, protegendo-a como um pai, amando-a como um ente querido da família.



FIM


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