Naquela tarde abafada sem sol, parado próximo a mim, um rapazote chamava a minha atenção. Trazia em sua fisionomia um viso de angústia. Diante das circunstâncias, imaginei que estivesse atrás de comida ou de dinheiro. Imediatamente, sem saber quais suas intenções, procurei um lugar seguro e passei a observá-lo à distância. Deveria ser um daqueles moleques de rua, mais conhecidos como "trombadinhas". Este, no entanto, dava a impressão de gozar boa saúde. Um pouco mirrado, porém de bom aspecto. Nele notei uma impaciência incomum, uma estranha sensação de onipresença.
Trajava roupas surradas, mas até certo ponto limpas. Não pude ver se carregava consigo cola ou qualquer outra substância entorpecente que pudesse justificar seu comportamento irrequieto. Seu andar firme, não revelava ebriez. Jurava ter oito, no máximo dez anos. Instantes depois, porém, soube que tinha acabado de completar quinze.
Impaciente, perambulava como se estivesse atrás de algo ou de alguém. Sorria, falava bobagens aos transeuntes, gritava com os seus companheiros. Ameaçando jogar-se aos automóveis, parava no ar feito beija-flor, abrindo e fechando os braços, sorrindo, gracejando, exibindo-se ao mundo. Sob aquele mormaço infernal, ele aparentava não dar a menor importância à vida e, ao mesmo tempo, a contemplava de tal forma que nem parecia ser o que era.
Sentia fome, sentia sede e sem puder saciar-se, cantarolava. Vá lá que a música não era grande coisa, que sua voz era de uma estridência ensurdecedora. Todavia, naquele momento, o que lhe importava era o simples fato de viver sem se preocupar em como se estar vivendo. Milagre da vida? Não sei ao certo. Custo a acreditar em milagres. Mas não é por aqui que famílias inteiras passam com algo em torno de cento e cinqüenta reais por mês? Pois bem. Pasmo fiquei quando soube que nem com isso sua mãe contava para criar sua numerosa prole. O pouco que conseguiam nos semáforos mal dava para alimentar os menores. Todos em sua casa tinham mesmo é que se virar para sobreviver. Sobretudo ele, que já tinha até um herdeiro para sustentar.
Em frente ao cinema decadente do centro da cidade - o único que ainda restava de pé - ele fazia suas peripécias. Sambava ao som dos carros que paravam no cruzamento. À beira do rio lançava suas lorotas, extraindo-lhe latas vazias, pneus velhos e até móveis para os quais ele mesmo arrumava comprador ou serventia. Cria que desse jeito trabalhava, não para si próprio, mas para a cidade. Relutava em acreditar que houvesse lixo tão rico submerso em águas tão poluídas. Na sua cabeça, as lixeiras das ruas não eram dignas de armazenar tão precioso material. Sendo assim, Deus (ou sabe-se lá o demônio), teria criado os rios para que nele o homem pudesse, dentre outras coisas, dar fim ao que não mais lhe fosse útil ou a tudo aquilo que se envergonhasse em possuir.
Diante da sujeira do centro da cidade, ele fingia estar no éden. Subindo nos galhos das árvores ou zombando das desgraças alheias, e da sua própria, já fazia parte de uma paisagem draconiana, mas ao mesmo tempo singela. Relacionava-se bem com todos da vizinhança. Dos taxistas aos engraxates, passando pelos flanelinhas e pelos "meninos-limpadores-de-pára-brisas".
Vi em seu semblante uma reverência toda especial aos policiais que, vez por outra, transitava por aquelas bandas. Batia-lhes continência, puxava conversa, sendo quase sempre ignorado, o que não chegava a ser, para ele, novidade alguma.
Soube, tempos depois, que sonhava em entrar para o exército. Queria "servir-se" da pátria para esquecer um pouco o seu destino, e tentar, de qualquer forma, modificá-lo. Desejava, ao menos uma vez na vida, guerrear contra inimigos que lhe dessem uma chance de se defender, de vencer um combate. Contudo, por ironia deste próprio destino, teve de mudar de planos, não por que o almejasse, mas, digamos, por ter sido irremediavelmente obrigado a fazê-lo.
Nesta mesma tarde sem sol, pude vê-lo pela primeira e última vez. Reconheço-o, entretanto, cada vez que transito pelas ruas da velha cidade. Sim, pois hoje já não mais me encanta suas pontes centenárias ou seu velho casario. Atenho-me apenas às pessoas que dela fazem sua morada, que dormem sobre suas calçadas sobrevivendo de sua correria, e aos que nela sonham apenas fazer parte de sua rotina sem serem vítimas de sua cruel realidade.
Tiros disparados, carros enlouquecidos, e sem que ele percebesse a sua respiração começava a se fazer ausente. Pessoas gritavam, sirenes anunciavam o caos. Ouvia-se a música do desespero, sem melodia. Via-se cenas dignas do filme que estrelava no cinema que ele costumava abraçar todas as manhãs. Só não se via mais os seus vôos ao espaço infinito, sua jocosa tolerância ao dia-a-dia, nem tampouco a sua imagem esquálida, porém tão cheia de vida. Confundiram-no com algum dos bandidos que saiu correndo rua afora a se homiziar da polícia? Ou será que a bala perdida o achou por piedade, a mando da metrópole intranqüila com seu desarvorado futuro?
O rio, e somente ele, foi testemunha do acontecido. Talvez por isso, e por desacreditar na justiça dos homens, o abraçou, deglutindo-o. Seu leito, agora, levava o entulho da cidade grande, as sobras de sua riqueza e, paradoxalmente, o traço mais hediondo da miséria humana. Nele nosso "herói" encontrou quem sabe a glória, sem as batalhas campais que almejava um dia se deparar. Por fim, tragado pela margem mais profunda do rio que o conhecia tão bem, já não entoava cânticos nem imitava os pássaros ou chimpanzés. Apenas permanecia imóvel, como se a muito tempo dele fizesse parte, diante da terceira margem da vida.