Meu pai, e antes dele meu avô, trabalhou a terra, plantava e colhia para comer. Trabalhava a terra com instrumentos arcaicos desde o nascer do sol até de tardezinha quando o sol se punha e ele voltava para casa cansado e preocupado. Apesar da exaustão do trabalho pesado, perdia às vezes noites de sono preocupado e assustado porque a semente recém plantada necessitava de chuva e o céu amanhecia cada dia mais azul, ou então porque o fruto precisava de menos umidade para não apodrecer no pé antes do momento da colheita.
Quando “São Pedro” ajudava e a colheita era farta, o dono da terra (que não era o meu pai) ficava mais rico. A produção era dele em sua maior parte e na parte de melhor qualidade. Mas ao meu pai cabia um pouco mais de feijão, um pouco mais de arroz, um pouco mais de café. O suficiente para vender e comprar, quem sabe, um corte bem bonito de chita para que minha mãe pudesse fazer um vestido novo. Aquele ano comiam.
Quando o tempo ingrato arruinava a colheita, o dono das terras continuava rico porque o pouco que se conseguia colher era dele “por direito” e meu pai ficava apenas com um pouco de milho carunchado para fazer fubá e comer polenta feita com água e sal e mingau um ano inteiro. Eu me lembro que meu pai, depois que se mudou para São Paulo e começou a trabalhar nas fábricas de automóvel do ABC podia, em época de desemprego ou de alguma situação mais difícil, passar fome, mas nunca mais comeu fubá.
Ele trazia o bife que serviam no refeitório da fábrica para nós, crianças, e se alimentava apenas de arroz com feijão.
Na roça ele trabalhava e tinha do produto de seu trabalho apenas e mal, o suficiente para continuar a viver para continuar trabalhando. O dono da terra provavelmente nem se lembrava de seu nome; para ele, meu pai era apenas um número, um de seus “meeiros”, um ser não humano que produzia sua riqueza.
Quando veio com o pouco-quase-nada que tinha para trabalhar na Mercedes Bens, na Volkswagen, na Scania, ele passou a trabalhar na produção de carros, não tinha nem mesmo parte do que produzia (meu pai nunca teve carro) e em lugar de alguns sacos de feijão para comer e se manter vivo para continuar trabalhando durante um ano, recebia uma certa quantia de dinheiro, suficiente para comprar um pouco de arroz e feijão para se manter vivo e continuar trabalhando durante um mês.
O empresário não sabia, com certeza, o nome do meu pai, para ele meu pai era apenas um número, uma coisa que produzia para que ele ficasse mais rico.
Hoje meu pai está aposentado e continua mal-sobrevivendo, continua ignorado pelo empresário e pelo Estado que levou parte do seu suor durante décadas e agora entrega a ele todo mês um dinheiro que não é para ele continuar vivendo. Afinal, ele não está trabalhando mais.
Hoje existe o sistema do trabalho como fim em si mesmo, a complexidade dos mecanismos de dominação é muito maior, mas será que meu pai trabalhou algum dia em sua vida para alguma coisa que não fosse trabalhar? E meu pai é branco, sempre foi um homem “livre”, não era e nem descendia de escravos. Fosse eu falar nos antepassados do meu marido, que é negro, a situação seria ainda mais aterradora.
Acho que desde o dia que o primeiro homem ofereceu uma pedrinha colorida para que outro homem fizesse algo por ele, o domínio do homem sobre o homem tem transformado o dominado em coisa, em número, e tem dado a ele apenas a condição de continuar vivo para continuar a trabalhar e, como a revolta é natural de todo ser (até mesmo alguns animais se revoltam) dá o dominador ao dominado a ilusão, a esperança de um dia ser dominador ou apenas o ópio de uma festa.
A política que já existia no Império Romano: “pão e circo”. Hoje é: salário mínimo, ideologia e futebol.