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Contos-->DEPOIS DA EXPLOSÃO DO PLANETA AZUL -- 17/11/2009 - 16:40 (Divina de Jesus Scarpim) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
De repente, numa tarde em São Paulo, numa madrugada em Tókio, num dia em que a terra toda vivia sua vida com pessoas e bichos e plantas espalhados por todos os lados. Num dia comum em que amores e guerras começavam e terminavam nos sentidos mais reais e mais subjetivos; em que aviões e carros e ônibus e caminhões circulavam pelas estradas e vias de todos os países pobres e ricos dos continentes e ilhas, num dia em que animais e plantas estranhos e não estranhos viviam suas vidas de caça e caçadores, de pesca e pescadores sob as águas mais ou menos profundas de mares rios e lagos. Num dia de repente, sem aviso sem previsões, de repente sem uma única premonição, uma única sensação estranha de gente ou de bicho, sem que Jesus voltasse à Terra e sem que cornetas anunciassem o Armagedom. A Terra simplesmente explodiu.

Todos souberam da explosão, viram no espaço a bola de fogo que descontinuou os arranjos atômicos e desfez qualquer possibilidade de corpo vivo. Todos se viram, sem que pudessem nunca explicar como e com que propósito, todos se viram desaparecer no big bang da vida a base de carbono lotada e acomodada no mísero planeta azul. Foi rápido de uma rapidez tão grande de fazer segundo parecer ano. Não houve tempo para dor.

No mesmo instante, no mesmo microssegundo em que se viam fundir na muda explosão as vidas surgiram em outro lugar e as pessoas começaram a se perguntar o que teria acontecido enquanto olhavam para os animais e as plantas que estavam, simplesmente estavam, sem perguntar. Animais diversos andavam sem espanto numa mistura inusitada de presa que não fugia e predador que não perseguia, mas as pessoas, essas instáveis criaturas sem segurança, sem unidade, sem certeza e sem amor ao que é fixo não conseguiam se segurar e todos mudavam de forma sem parar em nenhuma e sem entender por que o faziam. Eram sombras mutáveis que tão rápido se transformavam em outra e outra e mais outra forma que não havia como fixar num olhar forma nenhuma.

Até que alguém se olhou em um espelho d’água e qual Narciso se descobriu. E essa pessoa ficou se olhando e foi escolhendo a forma do rosto, a cor dos olhos, a textura dos cabelos, a altura e o delgado da silhueta. Quando parou e fixou forma era uma mulher ruiva e simpática; quase ao mesmo tempo outra mulher, negra e forte fazia o mesmo, e também o menino moreno de olhos vivos e um rapaz loiro e alto, e uma menina de cabelos muito longos... cada um em lugar distante e diferente conseguiu, olhando um espelho d’água, parar suas formas e se fixar.

Essas primeiras pessoas começaram a falar com as outras que estavam por perto, ensinaram como escolher uma forma e algum tempo depois, cada um ensinando aos outros, vários grupos se formaram com pessoas que tiveram suas formas definidas, escolhidas, e as transformações rápidas foram parando até que todo mundo em todos os grupos eram pessoas estáveis em suas formas como o eram os animais e as plantas.

Eles conferiram e se conferiram, conversaram, trocaram impressões e lembranças e começaram a concluir coisas e a discutir essas conclusões com concordâncias e discordâncias, com conjecturas e hipóteses levantadas que foram aos poucos sendo comprovadas ou não. Descobriram cada um deles que a lembrança da explosão da Terra era comum a todos, era a mesma e acontecera para todos da mesma forma. Então, cada um dos muitos grupos concluiu, por falta de maiores dados, que a Terra explodiu e eles, sem seus corpos originais foram mandados para outro lugar - esse em que estavam - e receberam outros corpos aos quais puderam dar uma forma definitiva, descobriram que a forma com a qual cada um se estabilizou em geral não era exatamente a mesma de seus corpos originais supostamente explodidos junto com o planeta.

Todos os que eram velhos antes da explosão, se definiram com aparência jovem, os que eram jovens se definiram como jovens mesmo mas às vezes com “alguns anos” a mais; mas todos, jovens e velhos, sem nenhuma exceção, se fizeram com a aparência que desejavam ter e não com a que tinham, mesmo aqueles cuja aparência gerava inveja na grande maioria das pessoas, encontraram algo que mudar em si, o resultado disso foi que o lugar, que, a princípio e até que se provasse o contrário, se o fizessem, foi chamado de Planeta, ficou povoado por pessoas belas, jovens e saudáveis que logo perceberam que estavam convivendo sem receio com animais que seriam terrivelmente perigosos na Terra antes da explosão.

Eram grupos relativamente pequenos que estavam milagrosa e estranhamente instalados em um lugar muito parecido com o paraíso, ou com o que se definiria religiosamente como paraíso. Havia uma natureza exuberante de beleza e totalmente nula de perigos, ninguém se lembrou de comida em nenhum dos grupos até que alguém dizia em voz alta que eles não sentiam fome e não tinham nenhuma necessidade de comer ou beber, então começavam a ver que os animais que os acompanhavam também não comiam. Viram que não anoitecia e notaram que no céu havia três sois, notaram que passaram muitas horas conversando e se conhecendo e que ninguém se cansou ou sentiu sono, ou dormiu.

Passaram muito tempo conversando, falando de quem eram, da vida que tiveram, de tudo o que fizeram e do que faziam até o momento da explosão. E nessas conversas longas foram notando que não mentiam e que escutavam o outro e se interessavam pelo que o outro era e pelo que o outro dizia e sentia. Estranharam a si mesmos e não reconheceram em si a raça humana a que pertenceram. Mas não faltava neles a personalidade, a consciência, os gostos e as lembranças que faziam deles o que eram, embora nenhum deles conseguisse mais encontrar em si qualquer vestígio de egoísmo, e todos viram que seus defeitos mais patológicos se esvaneceram com os gazes do planeta que explodiu. Alguém dizia que era ladrão e assassino e que tinha como principal característica um ódio incontrolado pela humanidade e todos ouviam sabendo que era verdade e que agora todo o ódio era só lembrança que nem alegrava nem causava dor. Pensaram seriamente que estivessem em um paraíso religioso mas o fato de ladrões e assassinos estarem ali meio que impossibilitava a certeza desse fato.

Alguns encontraram pessoas com quem viviam e eles se olhavam e se amavam mais do que antes mas sem que nenhum tivesse a aparência com que se despediram sem se despedir no momento da explosão. Pessoas que se odiavam também se encontraram somente para perceber que o ódio se esvaiu totalmente e que podiam, sem constrangimento, conviver, conversar, ser amigos e até se amar. Muitos concluíram que embora não fosse exatamente como o paraíso prometido aos poucos bem-aventurados que na Terra tivessem renunciado à vida, esse lugar se parecia com ele de certa forma, embora de uma forma mais profunda fosse totalmente diferente.

Ninguém procurou ou pensou ter encontrado um deus nesse lugar, ninguém se lembrou de deus como algo a ser adorado, ele era apenas uma idéia, uma característica de personalidade que tinham perdido junto com o egoísmo, na explosão.

Depois de conversarem e continuando sempre a conversar, as pessoas de cada grupo começaram a procurar coisas para fazer, e começaram aos poucos a fabricar brinquedos e objetos de arte, a escolher um lugar para fazer algo que se assemelhasse a uma casa e a reservar um pedaço desse mundo para que fosse seu mundo e começaram a enfeitar seu mundo e a dar nome às coisas que viam e aos lugares que habitavam. E um dia se lembraram de que estavam todos nus e começaram a fazer roupas e colares e braceletes para se enfeitarem. Esqueceram que existia medo, vergonha, inimizade, morte. Esqueceram que os animais não podiam viver junto com eles e nunca nenhum foi expulso. Esqueceram que as árvores podiam ser derrubadas e não construíam coisas de madeira porque não lhes ocorria tirar e fatiar a carne do vegetal.

Fizeram vidros e espelhos e trabalharam metais. Aos poucos, muitos aos poucos foram criando coisas e estudando o lugar e foram tendo filhos, não muitos filhos a ponto de lembrarem os coelhos da Terra, não poucos filhos a ponto de temerem o próprio desaparecimento, e viram que os animais também tinham filhos e os filhos dos animais e os filhos dos humanos brincaram juntos. Um dia alguém morreu e souberam que se morria, outros morreram e nunca se sabia quanto tempo alguém podia viver. Mas crianças não morriam, filhotes não morriam e doenças só existiam na lembrança de antes; muitos não viram pessoas de outros grupos antes que algumas chegassem até onde estavam porque em cada grupo alguns não escolhiam lares e não construíam casas mas saíam para explorar e andavam muito até encontrar outro grupo onde ficavam um tempo antes de continuar. Nunca um grupo chegou até outro grupo com tocaia e invasão e vontade de tomar posse e saquear, nunca um grupo temeu outro grupo, nunca um grupo nômade foi mal recebido e de cada grupo alguns saíam para acompanhar grupos que passavam e grupos deixavam muitas vezes membros que de repente decidiam ficar.

De andar e de encontrar os que andavam concluíram que estavam em um planeta muitas vezes maior que a terra e que nunca terminariam de povoar. De inventar e criar, muito tempo depois, descobriram que não eram mais seres à base de carbono, enxergaram as partículas e elas eram outras, tiveram que dar outros nomes e procurar outras características, construções, associações e regularidades porque a tabela periódica de mendeleyev e muitas das leis científicas comprovadamente invariáveis não existiam na química e na microfísica desse lugar.

Tinham muito que fazer, muitíssimo o que aprender e o que explorar, muito o que criar e muito o que produzir para tirar da memória e guardar a memória para transmitir a todos os que viriam as lembranças sem paixões de um tempo em que viviam em outro lugar e eram outra coisa. Como grupo, como raça, como seres humanos não mais carbono tinham ainda muito, muito muito que viver.
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