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Contos-->DOMÉSTICA 2 -- 17/11/2009 - 16:41 (Divina de Jesus Scarpim) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
Precisa trocar as cortinas do box, estão um tanto sujas embaixo. Talvez fosse bom comprar cortinas novas. Bah! Não importa, não quero pensar nisso. Será melhor ir para o apartamento do litoral e viver lá. Não vai dar certo, os meninos gostam de passar fins de semana e feriados com os amigos no apartamento, seria uma intrusa. Além disso ele também vai de vez em quando, acabaria me aborrecendo, melhor ir para onde não fique sozinha ou então para onde ele não possa ir, onde não seja propriedade dele, a pior coisa que fiz foi parar de trabalhar, preciso passar uma vassoura nessas teias de aranha da janela, não se tem nada quando não trabalhamos, depois fica difícil, já preparei tantos currículos e não deu em nada, aos quarenta anos quem vai querer uma mulher que esteve pilotando fogão durante tanto tempo? Tanta mocinha de vinte procurando emprego. Preciso avisar a Dona Vera que os produtos dela chegaram. Meu Deus, como é deprimente se olhar aos quarenta! O sabão deve fazer espuma na pele, lavá-la e ser tirado sem que a gente veja. Horríveis estes peitos caídos. Vá, não seja tão injusta, para uma mulher de quarenta anos você está ótima! Isso é que irrita, para uma mulher de quarenta, só que o mundo tem vinte. Enxuga logo esse cabelo e pára de frescura! Quero que aquele cretino saia da minha vida, mas como? Se os meninos fossem pequenos levava comigo, ia para qualquer lugar, largava tudo com eles. Mentira, não faria nada como não fez, não fiz porque tinha medo, com duas crianças, como viver?, como cuidar deles e trabalhar, com quem deixar? Mas além de tudo tinha a esperança, ele podia melhorar, naquele tempo a esperança existia, depois foi acabando, talvez o amasse ainda, agora não mais, por isso a esperança morreu, está morta por dentro, seca como a desilusão teimada dia-a-dia, ano a ano. Tem os meninos, como seria sem eles? Aquelas vozes, aqueles sorrisos é que dão razão à vida. Estão homens, logo vão embora, fico sozinha com ele. Não, não fico, vou embora com o último filho que for, para qualquer lugar, sem os meninos não tenho com que me preocupar. Os papéis de pedido, têm de ir amanhã, quanta correria, se ao menos fosse melhor vendedora, não sei cobrar, não sei oferecer e insistir naquele jeito de quem não está insistindo, só mostro e pronto. Será que é ele, se for veio cedo, vou sair daqui e ler, não vou passar na sala, não quero ver a cara dele, coisa aborrecida estar com a pessoa na mesma casa e não ter esperança, será que ele não se incomoda, não se manca ou é só para aborrecer? Talvez fosse melhor no tempo que chorava, estava triste. Doía tudo, um caroço enorme me crescia no peito, tinha auto-estima ferida mas me valorizava e me paparicava de pena, e ia ser consolada, não era mas ia ser, sempre ia ser. A espera cansou, o caroço derreteu, a tristeza molhada acabou e ficou a seca. A tristeza seca não dói como o caroço, no peito. Dói na vida, fora do corpo, dói todo o quarto, toda a casa, dói o quarteirão inteiro, dói o mundo e doer o mundo não é dor que sirva para molhar os olhos, inchá-los e dormir de cansaço. Dor seca dói mais longe, espalha tanto que nem no sono deixa de estar. Nos olhos do universo a dor coloca uma camada como uma cortina de areia fina. Enxugar o pé com essa unha machucada é ruim, se fosse à pedicure talvez ela não tirasse bife, eu não sei. Da mão tudo bem, não tiro, mas do pé. Ai! De que adianta nessa idade ficar fazendo mão e pé? De que serve ter unhas pintadas se a mão é velha, enrugada e calejada pela roupa e pela louça, toneladas em tantos anos, que se lavou? Ser velha é uma tortura sem remédio, pior do que estar doente. Doença pode ter cura, velhice não. Saber que o tempo está sendo reduzido a cada dia, saber que não dá mais para fazer planos a longo prazo. Saber que se tem apenas a certeza da morte, da fraqueza e das doenças que a velhice fatalmente vai trazer. Como é que pode alguém ter a coragem de dizer que a velhice está na alma? Nunca se criou uma frase mais mentirosa e absurda do que essa! Fico espantada, sinceramente espantada de ver pessoas se comportando como se acreditassem mesmo nessa história. Não consigo nem sequer acreditar que estão sendo sinceras, algumas pessoas são capazes de acreditar em coisas absurdas, como duendes, extraterrestres bonzinhos e coisas do gênero, mas acho que ninguém é capaz realmente de acreditar nesse disparate de velhice não existir a não ser na alma. É mais fácil acreditar em papai Noel e em bicho papão. Tem gente que parece não ter a mínima noção de ridículo. E algumas velhas têm a coragem de dizer, como se pudessem convencer a alguém: tenho cinqüenta anos mas não me trocaria por uma dessas menininhas de vinte. Me engana que eu gosto!. Não se trocaria é? Não, porque sabe que é impossível. Se pudessem realmente se trocariam por qualquer menina de vinte anos, mesmo uma feinha e sem graça, mesmo uma gordinha, burrinha e desengonçada, qualquer uma mesmo. Como sabem que não podem vêm com essa conversa de raposa. Fim do banho.
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