Uma foto de sorriso em cima da geladeira e a saudade do filho distante durante os afazeres do dia. Uma lágrima teimosa salgando o café da manhã enquanto o sol seca a roupa recém colocada no varal.
No computador o curriculum reescrito, refeito e reimpresso para ser enviado segunda, terceira vez com o pedido sem palavras do emprego “pelo amor de Deus”. E o dono do sorriso em cima da geladeira fala no telefone: quer fazer faculdade, mas não tem dinheiro, papi pode ajudar? Sei não, filho, a coisa não tá fácil, mas hoje tive uma entrevista, quem sabe até lá eu tenha já um emprego e possa ajudar. Te amo, beijão, tchau!
A vassoura passeia pela casa arrastando a poeira dos dias e a música no rádio lembra dias de juventude não tão alegre, mas tão alegres! E a carne pega tempero, o cheiro de alho não quer mais sair da mão.
Tem a pasta onde folheia os escritos, projetos pedagógicos que preparou quando estava se aplicando em ser educadora, aquela pessoa que não queria apenas ensinar gramática. Queria mostrar a gramática da vida, a gramática do respeito, a gramática da arte e a “gramática da fantasia”. Enquanto lava a louça pensa em outros projetos: um livro didático diferente, um capítulo a mais daquele paradidático que vai ajudar os alunos a gostarem de manusear o dicionário e brincar com as palavras descobrindo e inventando mundos. Talvez o ano que vem dê pra aplicar o projeto do livro de gramática como instrumento de pesquisa. E o sorriso em cima da geladeira transmite confiança... e saudade!
É noite e a roupa saiu do varal com seu cheiro gostoso de sol. O barulho do carro estacionando e os passos do príncipe encantado que agora é rei e que volta ao castelo. Sacode com força aquele aperto, guarda bem escondido atrás do sorriso aberto de boas vindas aquele sentimento de frustração e pensa numa palavra nova de carinho e de apoio porque o dia de trabalho que ele traz sobre os ombros pesa muito. A espada do medo do desemprego lhe pesa sobre a cabeça e a frustração da pouca remuneração pelo muito trabalho está ensombrecendo o brilho de seus olhos. É preciso polir seu sorriso e limpar de seus ombros o dia, é preciso alimentar seu ego derrubado e dar a ele toda a força de sua imensa fraqueza. Depois, apoiar no peito a cabeça cansada do príncipe-rei e deixá-lo dormir enquanto pensa mais um pouco em como e em que outro lugar tentar, de novo, o emprego para deixar de ser um peso, apenas um peso a mais no orçamento familiar.