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Contos-->CALÚNIA -- 17/11/2009 - 16:36 (Divina de Jesus Scarpim) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
A escola ficava longe, todo dia caminhava durante uma hora inteira para chegar até lá. Não se importava, gostou e gostou muito da escola. Adorou descobrir que estava aprendendo, sentir o cheiro gostoso de material novo quando seu pai espalhou na cama os cadernos, os livros e os lápis, as borrachas, as réguas e a caixinha de lápis de cor. Ficou muito tempo pegando o material um a um e cheirando bem fundo, depois pegou um livro e folheou inteiro. A partir daí criou o hábito de ler todos os livros didáticos assim que os recebia. Até mesmo na faculdade às vezes surpreendia os professores com o conhecimento adquirido no amor do cheiro de livro novo.

Não gostou muito das férias. Nos primeiros dias foi bom, acordava mais tarde, brincava mais tempo e chegaram os dias de ir com os pais para o interior, na casa da avó. Depois veio a saudade e descobriu que ainda faltavam muitos dias para começarem as aulas. Os dias se arrastaram monótonos e os contou um a um achando que estavam demorando cada vez mais para acabar, até que chegaria o primeiro dia de aula. Que delícia que seria então! Conhecer os novos professores, novos colegas de classe, aprender as novas matérias e descobrir assombrada que de repente tinha se tornado mais velha, maior do que o ano passado, porque veria os alunos que estariam na série que ela freqüentou no ano anterior e descobriria que eram muito crianças em comparação a ela.

Lembra que estava nos dias de ter pressa de crescer, pegou a moeda que ganhou do tio Mariano e foi até a casa onde morava o homem que fazia paçoquinha. Chegou na casa e empurrou o portão sem cuidado, como todo mundo que ia comprar paçoquinha fazia, chamou ô de casa porque não sabia o nome do homem e apareceram três crianças. Não os conhecia muito bem porque moravam há pouco tempo no bairro e não os tinha visto na escola. Havia um menino grande que já devia estar na quarta série, um outro pequeno que devia ser da primeira ainda e uma menina que parecia do mesmo tamanho dela. Os três disseram que o pai não estava, mas que ela entrasse que eles pegariam as paçoquinhas que ela queria. Entrou. Os três mostraram a ela aquele montão de paçoquinhas que estavam prontas e depois deixaram que ela também lambesse uma colher suja das paçoquinhas que ainda estavam sendo preparadas, brincaram um pouco e logo os meninos começaram a dizer algumas coisas que não entendia muito bem mas sabia que não eram coisas que eles falariam se os pais estivessem em casa, a outra menina ria e riu também e quando todos concordaram em brincar de papai e mamãe concordou em brincar também. Durante a brincadeira os três disseram que para dormir as mamães precisavam tirar a calcinha e então tirou. O menino menor pegou correndo a calcinha e a escondeu. Pensou que se chegasse em casa e contasse para a mãe que tinha deixado um menino esconder sua calcinha e voltava sem ela porque não pôde encontrá-la a mãe daria nela uma surra de cinta e até poderia contar ao pai quando chegasse em casa do trabalho e ele lhe daria uma surra muito maior. Então toda a brincadeira deixou de ser brincadeira e começou a chorar e a pedir que lhe devolvessem sua calcinha. As três crianças riam dela e depois de submetê-la à tortura pelo medo da surra ou das surras que levaria em casa devolveram-lhe sua calcinha quando ouviram os pais que vinham chegando. A calcinha estava escondida debaixo de uma frigideira muito grande que era usada para preparar as paçoquinhas. Saiu da casa ainda chorando e sem levar as paçoquinhas que havia comprado. Teve que se esconder numa moita antes de chegar em casa para vestir a calcinha e enxugar as lágrimas. Que a mãe não percebesse que tinha chorado. Jurou que nunca mais iria naquela casa nem por todas as paçoquinhas do mundo e que, quando começassem as aulas não seria amiga de nenhuma daquelas três crianças que sentiam prazer em torturar os outros.

O primeiro dia de aula chegou finalmente mas no caminho da escola ouviu alguém gritar de trás de uma moita na beira da estrada cadê minha calcinha! Lembrou do dia que foi comprar paçoquinha e sentiu medo e raiva ao mesmo tempo, mas como não viu quem gritava pensou que fosse o moleque menor, planejou ameaçar bater nele se ele não parasse com essa brincadeira boba. Se sua mãe ouvisse, poderia apanhar. Na escola se assustou tanto que não soube bem o que fazer. Muitos meninos olhavam para ela e riam, faziam a brincadeira de um perguntar cadê a minha calcinha e outro responder tá debaixo da frigideira e depois os dois caírem na gargalhada. Por medo e vergonha, optou por fazer de conta que não sabia do que se tratava, não sabia o que eles queriam dizer com aquilo. Afirmou para as amigas que não estava entendendo nada e que não se importava nem um pouco com aquela brincadeira de palhaços que não têm o que fazer. A verdade é que estava se sentindo mal, muito mal. Sentia-se humilhada, o primeiro dia de aula não teve o gosto bom que esperou.

No dia seguinte uma menina cujo irmão ficava rindo dela contou que perguntou ao irmão e ele disse que a brincadeira era porque ela foi na casa do Paulino e fez besteira com ele e com o irmão dele, que eles até esconderam a calcinha dela debaixo da frigideira e que ela tinha chorado e pedido que devolvessem a calcinha pra ela. Como no dia anterior ela tinha dito que não sabia de nada, sentiu que não podia voltar atrás e afirmou que era mentira, que não tinha acontecido nada daquilo e que ela nunca tinha nem brincado com aqueles meninos. Foi bastante firme na negação, tanto que algumas meninas acreditaram nela e tomando suas dores passaram a defendê-la sempre que possível. Mas não foi tão convincente a ponto de conseguir que os meninos parassem com a brincadeira de mau gosto e a coisa toda chegou até sua casa. Sua mãe soube, seu pai soube e vieram perguntar a ela o que aconteceu. Aí então é que ela foi convincente de verdade! Impulsionada pelo medo de apanhar negou tudo, chorou com a verdade que havia em toda a humilhação pela qual estava passando dia após dia desde que começaram as aulas. As lágrimas e soluços convenceram e enfureceram seu pai que saiu de casa e foi até a casa dos meninos para pedir que parassem com a brincadeira. A mãe ficou assustada, temerosa de que o pai, levado pela raiva, fizesse alguma loucura mas o viu voltar ainda mais raivoso e humilhado. Disse que os meninos confirmaram tudo e que os pais dos meninos deram apoio aos filhos e disseram que a filha dele é que devia ser repreendida por andar fazendo besteira com os moleques.

Todo o ano e durante vários anos suportou a tortura, a humilhação de ser, aos oito anos de idade, tratada como se fosse uma prostituta pelos meninos do bairro e até por alguns pais que vinham conversar com ela para saber se ela podia fazer besteira com eles também e algumas mães que proibiam as filhas de brincar com essa menina mal-falada. Quando se tornou adulta concluiu que nem mesmo uma prostituta de verdade merece ser tratada dessa forma. Não pôde fazer nada para se defender além de continuar negando e negando sempre e mostrar de todas as formas possíveis, que não eram muitas, o desprezo e a raiva que tinha daqueles meninos que a humilhavam tanto. Pôde fazê-lo no dia que jogou em um grupo que fazia as brincadeiras de sempre contra ela uma pedra que acertou nas costas de um deles. O menino saiu muito machucado, foi levado ao médico e teve que levar ponto no ferimento. A mãe foi até à casa dela disposta a brigar em troca da agressão. Quando contou que atirara a pedra porque ele estava, junto com outros meninos, falando mal dela a mãe, uma mulher cuja lembrança guardaria com carinho o resto da vida, virou para o filho e disse raivosa. Então é isso? E você me faz vir até aqui seu desgraçado! Se eu soubesse teria te esfregado o machucado com pimenta. Deu vários tabefes no filho, desculpou-se com ela e sua mãe e aquele menino nunca mais participou das humilhações que faziam a ela.

Outra vez aconteceu na sala de aula na quarta série. Todos tinham medo da professora, ouviam contar que ela batia com a régua e puxava a orelha com tanta força que chegava a cortar e sangrar e ficava vermelha durante vários dias. Era começo de ano e ninguém tinha visto nenhum daqueles horrores mas procurava ser ainda mais comportada do que o normal para não correr o risco de ter as orelhas arrancadas. Nem se espantou quando um menino que era novo na escola mas que tinha aderido com muito entusiasmo ao passatempo de humilhá-la, virou-se na carteira e falou baixinho cadê minha calcinha. A professora perguntou o que ele estava dizendo e ouviu a história que todos contavam e que o menino repetiu sorrindo meio nervoso, ela olhou pra fora da sala para esconder as lágrimas. Iria se lembrar durante toda a vida o som do soco forte que a professora deu na mesa e iria lembrar para todo o sempre com respeito e muito carinho a expressão da professora quando olhou para o menino e falou com os lábios contraídos, os olhos bem abertos e uma força na voz que não admitia discussão dentro da minha sala de aula eu não admito esse tipo de brincadeira idiota e de mau gosto, e continuou falando muito e fez com que o menino pedisse desculpas e o jeito e as coisas todas que ela falou fizeram com que a classe inteira sentisse vontade de pedir desculpas e fizeram com que chorasse ainda mais nem de tristeza nem de alegria mas de amor por essa professora que sentiu como uma mulher forte e humana como ela queria muito ser um dia.

O menino continuou fazendo a brincadeira do cadê minha calcinha no caminho da escola e em qualquer lugar onde a encontrava mas nunca dentro da sala de aula e alguns dos que estudavam na mesma sala mudaram o comportamento para com ela e não participavam mais das brincadeiras nem fora da sala da professora Neusa. Aos poucos, muito aos poucos, foi diminuindo e quando chegou na quinta série eram poucos os gritos de cadê a minha calcinha que ouvia no caminho da escola, mas sabia quais eram os donos dos gritos e os donos dos risos e por isso quando a professora de educação física começou a organizar os pares para a quadrilha e a colocou com um menino cujo riso ela conhecia muito bem afirmou com ele eu não danço. A professora bem que tentou impor sua vontade pelo medo, ameaçou, ordenou, afirmou que era por causa da altura e que teria que dançar com ele de qualquer jeito. O menino ficou calado e seu rosto ficou muito vermelho, só era corajoso em grupo. Não voltou atrás sob nenhum tipo de ameaça. Recusou-se a ficar perto do menino, cruzou os braços e a tudo que a professora falava ela apenas respondia que com aquele menino ela não dançaria.

A professora então não pôde encontrar outra solução senão procurar em outra sala um menino da altura certa e pedir-lhe que dançasse com ela. Não o conhecia mas dançou com ele e fez dele um de seus amigos mais queridos até o final da oitava série.

Passaram os anos e os risos desapareceram do bairro. Quando teve um filho disse a ele, muitas, muitas e muitas vezes: nunca, jamais, por nenhum motivo e sob nenhuma circunstância fale mal, tire sarro ou goze de uma menina de qualquer idade. Mesmo que ela seja uma galinha, mesmo que ela seja de verdade uma prostituta, mesmo que ela seja tão usada por todos que pareça gostar das brincadeiras. Sempre que você olhar para uma mulher, por mais que ela mesma tenha se desvalorizado lembre-se de que aquele “bicho” é um ser humano. Se você um dia ofender uma mulher, é a mim e só a mim que você estará ofendendo.
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