Uma comunidade feliz, aquela de Praia do Norte. Famílias de pescadores que trabalhavam juntos, tirando do mar tudo quanto necessitavam para viver. Pescavam para comer e para vender. Os homens cuidavam das redes, das embarcações, faziam-se ao mar e as mulheres cuidavam da casa e dos filhos. Teresa era muito jovem, ainda, mas ensinava as crianças na escolinha da vila, ajudava a escrever bilhetes e cartas de quantos a procuravam e ouvia suas histórias. Filha de João Pescador, era uma moça muito bonita, querida por todos pela sua alegria constante e presteza para auxiliar o próximo. Seu canto, nas noites de verão, fazia com que todos sentassem a sua volta, na praia, a ouvir suas canções que falavam de mar, de céu, de lua e de amor.
Nada parecia quebrar aquela harmonia, aquela integração de gente simples, humilde, mas autêntica e pura. Até que Pedro apareceu na vila. Pescador de uma das ilhas vizinhas, viera comprar uma das embarcações do pai de Teresa. Rapaz forte e bem apanhado, despertou sobre si a atenção da moça, que o observava à distância. Pedro também a viu e sorriu.
- Seu João, eu estou mudando para cá, pois morando na ilha é mais difícil vender o que se pesca. Vim procura-lo porque soube que quer vender uma de sua embarcações. Gostaria de vê-la, pois preciso comprar novo equipamento de pesca. Deixei o que tínhamos com meu pai.
- Sim, estou vendendo um barco. Vamos vê-lo.
Pedro comprou a embarcação e passou a morar na vila. Pescava com o pai de Teresa, o que fez com que logo pudessem travar conhecimento. Pouco tempo depois, estavam namorando.
Quando Pedro foi falar com “seu” João Pescador sobre o casamento, o velho achou que era um pouco cedo, mas acabou concordando. A vila toda ficou em festa para comemorar o casório de Teresa e Pedro: um acontecimento que nunca seria esquecido.
Agora ela cuidava da própria casa e esperava o marido voltar do mar, à tardinha. Era, talvez, mais feliz do que antes, o que fazia com que toda vila parecesse também mais feliz. Nas noites de verão, cantava, ainda, apoiada no ombro de Pedro. Ensinava, ainda, as crianças e pensava no filho que viria, não sabia quando.
Naquela manhã, Pedro fora pescar sozinho e Teresa, como sempre, foi espera-lo na praia, no fim da tarde. Não se preocupava, pois não era a primeira vez que ele ia só. E depois, ele conhecia muito bem o mar.
Mas anoiteceu e Pedro não apareceu. Teresa ficou com medo e pediu, quando a noite já ia alta, que o pai saísse para procurá-lo. O velho foi, com mais alguns pescadores. Voltou, pela manhã, sem encontra-lo. Teresa estava desesperada. Continuou esperando por vários dias: ficava o dia inteiro na praia, olhando o mar, com os olhos molhados de lágrimas. Os homens da vila saíram para o mar outras vezes, à procura, mas Pedro não fora encontrado.
A vila toda, entristecida, sofria com Teresa. E a viu enlouquecer. Hoje, já velha, mais pelo sofrimento que pelo tempo, ela ainda vai todos os dias à praia, quer chova ou faça sol, para esperar Pedro. Para ela, ele vai chegar, todo dia: “Saiu de manhã, está lá, no mar, volta à noitinha...”
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