Um dia desses pude comprovar o que a grande maioria dos cariocas já sabem. Vivemos numa cidade violenta. Moro no Rio há mais de 40 anos, e vinha cochilando no ônibus que me leva da zona norte para o centro da cidade, quando fui acordado por um burburinho dos passageiros. Eram 5h30 da manhã.
Parado no sinal da Avenida dos Democráticos com a Avenida Dom Hélder Câmara, bem próximo à passagem sob a linha do trem no Jacaré, um grupo de traficantes, ou bandidos, como queiram, estavam fazendo um bonde e roubando um carro no sinal, naquele momento, ao lado do nosso ônibus.
Ouvi um deles xingar o motorista e mandá-lo sair dali. O motorista deu uma guinada para a direita, acho que avançou o sinal vermelho, e seguiu em direção ao centro. Ainda meio sonolento, não entendi bem o que estava acontecendo.
Ouvi o motorista exclamar: “Eles estão preparados para a guerra”, numa referência aos diversos fuzis e armas que portavam naquele momento. Atrás de mim um passageiro disse que “todo dia isso acontece ali, só a polícia não sabe”.
Foram muitos os comentários sobre a violência, mas ninguém se atrevia a falar qualquer coisa contra os traficantes, temendo represálias, talvez! Numa outra ocasião, no mesmo cruzamento, dessa vez à tarde, havia uma blitz da polícia no local.
Meu ônibus passou por fora e parou no sinal. Nesse momento, uns 8 rapazes praticamente invadiram o ônibus pela porta traseira, pularam a roleta e se sentaram. Do nosso lado direito, em outro ônibus parado, policiais revistavam os passageiros.
Nesse momento, os rapazes gritaram para o motorista: “Vai embora motorista, vai”. Ele então saiu, passou o sinal e seguiu, só que a polícia percebeu a manobra e veio atrás de nós, parando o ônibus na entrada da passagem do Jacaré.
Eu, sentado no banco à frente do cobrador, me mantive tranqüilo, como se nada estivem acontecendo, apesar de um dos rapazes estar sentado ao meu lado. Do lado de fora, dois policiais apontando fuzis para o ônibus, enquanto outros dois entravam no ônibus.
Nesse momento senti medo. E se os rapazes estiverem armados? E se começarem a atirar nos policiais dentro do ônibus? Vão ferir os passageiros, com certeza. Os policiais vieram, mandaram cada um deles se levantar, e os revistaram. O que estava do meu lado também se levantou, foi revistado e sentou. O policial sequer pediu que eu me levantasse. Acho que eles percebem, pela experiência que têm, quando alguém é suspeito, e não era o meu caso.
A viagem prosseguiu, e os rapazes desceram na Quinta da Boa Vista. Felizmente, nos dois casos, o final foi sem incidentes. Mas me pergunto o tempo todo. E nas comunidades, nos morros, nas favelas, onde a lei do crime impera. Como vivem essas pessoas. O governo diz que está tudo sob controle, que a polícia está presente. Mas por que então os tiroteios continuam, os assaltos, a insegurança presente no ar? Onde está a Cidade maravilhosa!!!