Nos dias de hoje, o que se vê com naturalidade, é um cinquentão acompanhado de uma adolescente. Há casos em que o “coroa” namora e casa, depois de um noivado com direito a tudo, inclusive festinha íntima. Mas ele desde sempre recusara esse privilégio de conquistar uma ninfa, adolescente, por melhor que fosse seu quociente intelectual. As experiências anteriores não lhe resultaram de bom grado, de satisfação. Ademais, quando ele teoriza sobre o universozinho das ninfetas, há comumente uma espécie de racionalização, de sublimação.
Mas dessa vez soou diferente. A flecha de cupido entrou sem pedir licença, varando seu velho coração.
Era um dia de semana, útil, vagaroso e sem graça. Descera do ônibus e, próximo a um telefone público, avistara uma admiradora, a quem tentara contratar, meses atrás, para sua, digamos, governanta. A moça, mulher de uns trinta anos, mal sabia falar a língua nativa, o português brasileiro. Depois, ela havia reunido todo seu arsenal de charme, de modo que superasse o problema de portar uma prótese dentária, que lhe dava uma aparência de mulher mais velha, com um leve defeito na boca.
Mas a realidade reserva certas surpresas, que os protagonistas deste barco chamado vida, nem percebem direito.
Uma jovem, de cor branca, cabelos castanhos e trazendo um inexplicável brilho no olho claro e nas maçãs do rosto, aguardava a vez de usar o telefone público. Ele olhou-a discretamente na pele de alabastro, no jeito juvenil e na pasta universitária transparente, através da qual se podia visualizar, a capa de um livro de contos. Inevitável querer saber algo sobre alguém com uma aparência diferenciada da cor local, falando um português correto, mormente quando sua discrição a destaca das outras moças.
Ela esperava familiares e ele aguardava outra pessoa. O telefone móvel tocou e ela atendeu de imediato, repetindo seu número completo. Ambos começaram a conversar sobre trivialidades, sem disfarçar, porém, que se interessavam um pelo outro, com direito a saber suas preferências, hobbies, profissões.
Ele se encantara por ela e ela se interessara tremendamente pelo seu modo gentil de tratá-la, a ouvir seus projetos de vida a curto e médio prazo. Despediram-se e saíram ambos em busca de seus destinos diuturnos. Um certo dia, como que a preencher uma agenda sagrada, os dois se encontraram, trocaram poemas e conversaram durante quase todo o tempo, sob a proteção do temporal desabando na noite, que lhe fizera retê-la em casa, sem medo ou preconceito. Descobrira que o amor se manifesta atemporal, portador da idade de sua própria duração.
Durante aquela conversa da noite anterior, ele fizera menção ao livro do Nabukov, “Lolita” e ela lhe disse que havia começado a ler. Seus 20 anos de idade, seu perfil de estudante e os cuidados que a família tem por ela, deixam o cinquentão cada vez mais apaixonado e ciente de que só o amor transcende o tempo.
WALTER DA SILVA
Aldeia, Camaragibe, PE julho 1997.
extraído de “22 CONTOS DE RÉS” ®