O chão da casa é de barro batido, cheio de depressões. O telhado, misto, de palha de coqueiro e folhas de zinco. O aluguel, atrasado de três meses, provoca no dono do pequeno imóvel, vontade de despejar o inquilino. Este, desencantado da vida, perdera o emprego na Prefeitura, recentemente. O alcoolismo tem-no levado às raias do desequilíbrio, próximo ao fundo do poço. Tentou-se de tudo, inclusive centro espírita, porque no AA, ele só permaneceu por uns dias, quando o pai obrigou-se a se ausentar, indo ao interior, enterrar a irmã mais velha, que morrera de complicações renais. Ele completou 30 anos outro dia. Inteligente, já fora funcionário concursado e ingressara na Prefeitura, faz 8 anos, depois que concluiu o segundo ciclo. Não o conheço pessoalmente, mas seria como se o conhecesse. Através do pai, que de mim gosta muito, tenho obtido notícias, nem sempre boas.
- Professor, há quanto tempo! Que bom revê-lo! Como vão as coisas? Abraçou-me quando nos reencontramos numa rua central da cidade, onde lá estou uma vez por semana, a buscar o pão de centeio.
- Meu líder... como está? E a família? Seu filho como está?
Respondi-lhe carinhosamente. Eles são todos do interior e ainda preservam um gesto já extinto nas grandes cidades: um forte abraço, seguido de um aperto de mão similar.
- Ele só está esperando a hora... sabe? Vive embriagado, pelo chão da casa, um farrapo de gente. Ainda ontem estive com ele, trancou-se no quarto e não queria me ver, de jeito nenhum. Eu, como pai, dissimulei, mas só eu e Deus sabemos como carregar essa cruz...
Disse-me depois que havia recebido os resultados clínicos da médica e que o filho deverá estar com cirrose hepática, crônica. Indaguei-lhe se ele não seria novamente internado. Respondeu-me que ele sempre estava fugindo do hospital e que era muito difícil mantê-lo lá, porque o INSS não poderia, por enquanto, aposentá-lo por invalidez.
Os desgostos da vida levaram-no a esse estado atual. O pai, um homem simples, guarda consigo ainda, o contracheque do primeiro salário recebido pelo filho, anos atrás.
- Professor, eu agora só espero a má notícia. Já disse pra minha velha: te prepara para a gente ir ao enterro, que não vai demorar muito.
- Mas tenha paciência homem, você sustentou a situação até agora, veja se pode agüentar um pouquinho mais.
A partir daí, notei discretamente, que ele já mostrara claramente os olhos rasos de lágrimas, tentando disfarçar.
Despedi-me calmamente, abraçando-o, não com todo o calor da sinceridade de um homem do interior. Em seguida, convidou-me para ir à sua casa para conversar mais e comer um bode feito pela “patroa, regado a uma cervejinha gelada.
Accedi-lhe dizendo que aceitaria de bom grado e daria um telefonema na próxima semana. Ele abriu um largo sorriso, sumindo apressado na multidão, dentro do borborinho da rua.
Certa vez, meses depois encontrei-me com alguém da família, um irmão deficiente, que me tratava como “coronel”. Perguntei pelo seu irmão e ele, em sua extrema simplicidade respondeu-me:
- Enterramos ele ontem. Morreu dentro de casa, dormindo, feito um passarinho.
WALTER DA SILVA
Vila Velha, setembro de 1995
Extraído de “22 CONTOS DE RÉS” ®