O M A S C A R A D O
“Para que conheças a certeza das
coisas de que já estás informado”
Lucas 1:4
A polícia evacuava a área, apinhada de povo, desde as primeiras horas da madrugada. É um terreno baldio, um caminho estreito, no meio do matagal, cheio de lixo, ratos e desova de gente. Lá estava um corpo de homem, jovem, uns trinta anos, seminu, de calça preta, uma bíblia amassada na mão direita, aberta no novo testamento. Identificado o corpo, concluiu-se que se tratava de um evangélico, da Igreja Universal da Santa Graça e que morava ali perto, na favela São Lucas, a alguns metros do local da execução.
Indícios levavam a crer que seria crime de vingança, pois o homem assassinado foi identificado também como alguém que se preparava para ser ordenado pastor protestante na igreja do bairro.
Primeira segunda-feira do mês. Genival recebera em casa a visita de um homem, de paletó e calça pretos, camisa de listras brancas, portando uma enorme cicatriz no lado direito do rosto. Com dificuldade para falar, apresentou-se como Deda e disse que morava perto da linha do trem. Pediu água, bebeu e foi convidado a sentar por Genival. A casa é de boa aparência, a melhor do bairro, porque o dono dela, viúvo, recebe a pensão da falecida, ex-funcionária do governo.
_ Vim aqui a mandado do Fellini, o bicheiro, você conhece?
Pergunta o Deda ao dono da casa que o olha curiosamente.
_ Acho que já ouvi falar nele... de fato, minha sobrinha já foi funcionária da firma dele, até o ano passado.
_ Estou sabendo que você é um grande líder na comunidade
e está se preparando para ser pastor, é verdade?
_ Se sou líder, ainda não sei, estou lá para completar a obra do Senhor. Mas o que tem isso a ver comigo?
Conversaram durante quase três horas e Genival ficou de dar uma resposta ao Deda, vinte e quatro horas depois. Um número de telefone público foi-lhe dado e ele telefonou ao Deda, marcando um encontro num galpão abandonado, detrás do lixão da Prefeitura, um lugar de fama meio esconsa. Seis meses depois, Genival, já ordenado pastor, roupa preta e gravata preta, é intimado para ir à delegacia para um inquérito de rotina. Estava ostentando demais e a polícia começou a desconfiar, porque estivera no encalço de um cara chamado “Lucas”, que estava assaltando nas primeiras horas da madrugada, taxistas e feirantes bem-sucedidos do Ceasa. O pastor Genival, depois de depor por umas duas horas, saiu da delegacia, seguro de que havia dito a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade. Abençoou, em nome de Jesus, o escrivão e o delegado, entrou no seu Honda Civic e foi direto para casa. Correu ao telefone público, o mesmo que lhe sugerira o Deda, de lá ligando para um número, supostamente de um homem chamado “Lucas”, a quem Deda lhe dissera que reportasse tudo, tudinho o que ocorresse com ele, tin-tim por tintim. Dias depois o próprio Deda fora preso e deduraria o pastor Genival, acusando-o de estar tirando o dinheiro do povo pobre para ajudar na “campanha do Senhor”, um falso movimento inventado por ele. Genival foi novamente convidado a comparecer à delegacia e, pressionado, obrigou-se a servir de testemunha, com proteção da polícia que começou a grande caçada ao tal “Lucas” que desaparecera como num passe de mágica. Naquela madrugada de céu carregado de nuvens de chuva, a polícia também encontrou um carro importado recém incendiado, uma casa destroçada e um corpo de homem jovem, de calça preta, bíblia na mão direita, aberta em “Lucas”, capítulo primeiro, versículo quatro. No bolso direito da calça, um pequeno bilhete amassado, com a inscrição: “Eu te avisei”!
WALTER DA SILVA
Vila Velha, outubro, 1995
Extraído de “22CONTOS DE RÉS” ®