Ensopava-me com o gel. Sobre o peito, um olho ali e outro fixado no monitor. Rastreava as entranhas do tórax, no espaço onde nós, leigos, imaginamos estar um coração. Os cabelos, negros, lisos. A boca carnuda, delineada, submissa. O corpo, mal dava para ver, naquela posição... pudera! Jovem, pele morena, contrastando com o uniforme branco, esculápio. Seu nome, guardei-o de tal modo, a não revelar, por circunstâncias e ética sensatez.
Ao final, já o peito coberto e menos vulnerável, levanto-me da mesinha e pergunto-lhe:
_ E aí...dá pra completar um centenário?
Ela me olha discretamente e apenas diz:
_ Está tudo bem em seu ecocardiograma... Apenas uma hipertrofia, no ventrículo, por conta desta hipertensão essencial. No mais... tudo bem.
Os resultados, fora buscar em seguida, quando me dei conta de que havia programado um concerto da sinfônica, um reservado papo, uma sóbria e recíproca atenção. Depois, outro concerto, outras palavras ditas de sussurro. Na terceira vez, fomos dançar, depois jantar e, sob alguns auto-questionamentos e reservada entrega, fomos a um motel, desses elegantes e de sabida discrição. Seu hálito, no momento endeusável daquela dança, sabia a gengibre, algumas horas atrás. Bebera uns três uísques, quem sabe, julgando-me mais ou tão interessante quanto no início, no teatro, quando nos conhecíamos. O sexo, um tanto apressado, mas com algum ritmo, levara os dois a cochilarem, um colado ao outro.
Acordei súbito e experimentei a pior sensação da minha vida, no intervalo sexual. O cheiro que exalara de seu sovaco era insuportável, inexplicavelmente. Tão forte, tão intenso, que resolvi me levantar, ir ao banheiro, lavar as mãos...
Uma pequena divergência, talvez de pontos-de-vista, levou-nos a uma leve altercação. Os olhos negros, vivos, meio despistantes, davam-me a impressão de que estaria raivosa... zangada. Tentei apaziguar. Mas não consegui. O odor axilar me tirara de tempo e o espaço que me restara era pouco e único, sem alternativas. Súbito, resolvi colocar para fora um pouco desse machismo bobo, inconsciente, que aporta aos homens em horas incertas e inoportunas.
Deixei-a em casa, na zona sul, com o sol timidamente abrindo a primeira porta. Chegou zangada em casa. E me dissera, antes de lá chegar: “ Pensei que fosse diferente”! Respondi-lhe: “ Não. Sou apenas diferenciado”.
Liguei na segunda-feira como todo o macho faz, julgando-se ser hábil o bastante que curasse um mau humor rompante. Mas nada! Não consegui demovê-la. Utilizara todo seu arsenal de interiorana, de médica recém-formada, para impor sua decisão. Tentei outras vezes, mandando flores e um poema sobre “meu incolesterado coração”. Não surtira efeito. Seria um placebo, inócuo. Por fim, chamou-me à residência familiar burguesa, apenas para terminar o transitório romance, sob a égide de análise recente, onde dissera ao psicanalista, que não suportaria mais homens iguais ou semelhantes ao ex-marido, que lhe dera duas filhinhas, expostas, no colo, ao interlocutor um tanto perplexo. Depois de tudo, dessa noite, quando um desodorante vencido nocauteara-me por nada, não a vi mais. Mas guardo seu ar provinciano, a boca vermelha e disposta e um leve sotaque de quem não demonstra ter qualquer pressa para cruzar a cancela do amor.
WALTER DA SILVA
Novembro de 2002.
Aldeia Camaragibe PE
Inserido em “CONTOS D’ALDEIA” ®