O
sono me havia subtraido a noite. Conseguir cerrar os olhos, fingir esta “morte” cotidiana, mastigar ilusões irrumináveis, delírios, tontice. Não me dou conta da hora em que te ancoraste, silenciosa, suave e misteriosamente, feito esfinge. Um último bastião, paredes frondosas, tu e teu exército de desculpas, razões e demais reservas. Esconderijo inexpugnável de personagens, a Frida Kahlo que se põe à soleira de imemorial tempo de revisões lacanianas, ocultada sob mil véus...
Antes do conhecer-nos, uma expectativa diminuta emoldurava o rosto branco, um batom discreto numa boca de anseios desconhecidos. A altivez feminina da Frida, combinava com cautelas e um código mínimo de palavras sob medida, mas nem tão monossilábico. O interlocutor, amalgamado no universo da pessoa-poesia, da pessoa-palavra, um rito a que se dá o luxo recorrer, diante de uma musa, uma deusa com vísceras, alma e um silêncio desmedido. O branco vestuário, imaculado, feito as mãos e o jogo de dedos a machucar discretamente um pedaço máximo de discrição. Em seguida, vêm os elogios do macho, uma leve carícia nos cabelos perfeitamente ajustados ao conjunto harmônico, um som de cítara, harpa e alaúde. O recital começara bem antes de o maestro chegar ao praticável, erguer a batuta, sob o olhar atento da mulher, a musa do sonho interminável do poeta.
A execução, debalde ensaios irrealizados, dá-se independentemente do quarteto de madeira e cordas: sentimento, razão, ousadia e cautela. A luz passando insistente através do vidro quadrado da parede de tua tolerância, reflete parte da imagem permitida durante a sessão cibernética, quando ambos se instalam ocultos, per se. Bits e bytes digladiam-se, escravos de dois personagens ocultos em apelidos, prestes a se disfarçarem de si mesmos: xico® e FridaKahlo34, emaranhados e conscientes do papel que exercem no mundo. O sonho me aprisionara na teia da noite. A mim, restaria apenas um pouco da brancura de tua roupa interior, que não se revelará enquanto não nos aprouver um certo código, que se deslinda quando a paixão nos despir, finalmente.
WALTER DA SILVA
Aldeia Camaragibe PE
1º de janeiro de 2003.
Inserido em “22 CONTOS DE RÉS” ®