Uma brasileirice e mais nada
Que até foge o entendimento
De quem desejar a explicação
Ou um melhor discernimento
De um fenomenal e culinário
Prato à mesa de nossa nação.
Um país que deste sua origem
Todo mundo mete uma colher
Só poderia a cultura alimentar
Ter tudo o que a gente puder
E como se plantando tudo dá
Dará na força da terra e da fé.
Nossos benditos portugueses
Fizeram as estradas pelo mar
Com as caravelas de madeira
Para trazer bem do lado de lá
Dos outros cantos do mundo
Sementes para nos alimentar.
E chegaram do solo europeu
Muita coisa do solo indiano
Do Oriente Médio e da Ásia
Pra não esquecer o africano
De onde vieram coisas boas
Falarei de um angu baiano.
E bem verdade não é baiano
Somente de uma carioquice
Com que existem no estado
Que é pródigo na esquisitice
De inventar coisas estranhas
Que parecem só maluquices.
E são até outros quinhentos
Que de doideira fomos bem
Aceito pela história passada
Até já na presente também
E quiçá ainda logo no futuro
E com orgulho dirão amém.
Mas foram nos portugueses
Com os negros já brasileiros
Que o angu pegou sua alma
E enfeitou seu corpo inteiro
Com carne que não é Friboi
E com o paladar verdadeiro.
Da verdadeira alma morena
Que veio a nascer na nação
Originada com muito sabor
Dos frutos da miscigenação
De forma variada e criativa
Ofertados a sua população.
Há cerca de sessenta anos
No centro do Rio de Janeiro
O famoso Largo da Prainha
O pouso inicial e derradeiro
Que Gomes, um português
Com seu angu foi primeiro.
Foi o início da era brilhante
Do Angu do Gomes famoso
Por trabalhadores da noite
E dos amantes do saboroso
Quente e de mais sustância
Que qualquer angu gostoso.
Tinha cerca de 40 barracas
Espalhadas pela zona norte
E o centro do Rio de Janeiro
A mais belíssima metrópole
Aflorada em solo brasileiro
E não era um feito de sorte.
Mas outra das brasileiradas
Alforriando negros da nação
Depois de servirem a pátria
E após horrorosa escravidão
Foi de repeti uma pacholada
Que nem merece o perdão.
Pois pegaram heróis do país
Que até nas armas de lutar
Mostraram valor e valentia
E abandonaram num lugar
A própria sorte e condição
E sem motivo para sonhar.
E na primeira favela surgiu
A gana guerreira da mulher
Que os homens sem labuta
Pegaram caldeirão e colher
Puseram o angu pra ferver
E foram ver como é que é.
E o como é era baita angu
Que alimentava e aquecia
Dava dinheiro para ajudar
No tempo agora de alforria
As necessidades primeiras
E um empurrão na alegria.
Como havia umas baianas
Entre mulheres guerreiras
No morro do pé de favela
A planta que de primeira
Nomeou as comunidades
Da forma mais derradeira.
Mas eis que pelas baianas
Acabou sendo já nomeado
Que logo pegou na cidade
Até hoje ficando afamado
Como o Angu das Baianas
Um milho bem apanhado.
No início foram de miúdos
Depois as outras variações
De costelas e carne moída
E das outras imaginações
Pois hoje é Angu à Baiana
Por todo jeitos e afeições.
Há notícias que o do Duda
O angu da Penha Circular
Foi de todos o insuperável
No seu tempero e paladar
Mas na zona norte do Rio
Tem muito para saborear.
Mas aproveitando a deixa
Peço até pra não espalhar
Para não acontecer um dia
Numa ânsia dele degustar
O pessoal chegar primeiro
E na minha vez ele acabar.
Eu me refiro ao angu do Jô
Um baiano lá em Cabo Frio
E a sua barraca de delícias
Levando a gente ao delírio
Por uns saborosos quitutes
Que são “quentes” ou frios.
O amigo é que faz escolha
Que a variedade é grande
De uma boa vaca atolada
Com acarajé já triunfante
Na disputa com os caldos
E com um bobó delirante.
Como umas coincidências
Os terminais de transporte
Estão próximos dos angus
Fazendo o comércio forte
Recebendo bem viajantes
Saciando a fome e a sorte.
Salve o nosso angu baiano
E salve também o mineiro
Salve de todos os rincões
Como o do Rio de Janeiro
Salve do Jô em Cabo Frio
Salve do o povo brasileiro.