“NO BOM, TODO MUNDO É BOM; QUERO VER SER BOM NO RUIM”.
O Rabicó me falou,
Há um certo tempo atrás
Que não esqueceu jamais
O que um cabra contou.
Encucado, decorou
E ligou dizendo assim:
- Glose este mote pra mim,
Sem quebrar rima nem tom:
“No bom, todo mundo é bom;
Quero ver ser bom no ruim”.
Imaginei um alguém
Com força e disposição
Tendo como refeição
Soro de nata e xerém,
Sem ter no bolso um vintém
Ser convidado a festim.
Uma orquestra sem flautim,
Frevo sem caixa e pistom.
“No bom, todo mundo é bom;
Quero ver ser bom no ruim”.
Pensei em como fazer
Cigano gostar da enxada,
Recruta, da alvorada,
Bicho-preguiça correr,
Crente gostar de beber
Cachaça no botequim,
Guri rejeitar pudim,
Mulher odiar batom.
“No bom, todo mundo é bom;
Quero ver ser bom no ruim”.
Murmurei: - Como é que pode
Brejo não ter atoleiro,
Romaria sem romeiro
E sertanejo sem bode?
Gaúcho adorar pagode,
Chorinho sem bandolim,
Aldeia sem curumim,
Dezembro sem Reveillon?
“No bom, todo mundo é bom;
Quero ver ser bom no ruim”.
Não sei se vou conseguir
Tirar a droga do morro,
Convencer o meu cachorro
A ver gato e não latir,
O pescador não mentir,
Tapera imune a cupim,
Briga com sogra ter fim,
Enricar vendendo Avon.
“No bom, todo mundo é bom;
Quero ver ser bom no ruim”.