De dentro do meu carro, vidros levantados, assisto de camarote o "espetáculo" da degradação humana e da luta pela sobrevivência.
Nos semáforos, mendigos, ex-drogados, vendedores, desempregados vestidos de palhaço, enfermos e aleijados imploram por minha compaixão e, claro, por meu dinheiro.
Queria poder ajudar, mas as moedas que carrego na bolsa não seriam de muita valia. Talvez até servissem para comprar um pão - ou uma garrafa de cachaça -, mas não para livrá-los de uma existência sem perspectivas e difícil.
Suando por causa do calor escaldante que faz dentro meu carro - que não tem ar-condicionado -, penso no que poderia fazer para ajudar esses meus irmãos.
Concluo que a melhor forma não é dando esmolas, mas votando em alguém que possa, imbuído de poderes, criar formas - políticas públicas, programas sociais, etc - de tirar tanta gente da miséria. Mas a decepção com o presidente que foi eleito com esta bandeira - e que ainda não foi capaz de fazer praticamente nada - destrói minhas esperanças de que o governo, algum dia, será capaz de pór fim à exclusão social. Ou, pelo menos, amenizá-la.
O sinal abre, acelero. Abaixo os vidros e vejo os infelizes sumindo, pelo retrovisor.
Mas o "problema" está por toda parte. Da minha janela, vejo alguns homens "garimpando" um container de lixo. Observo-os atentamente: catam coisas possíveis de serem recicladas e, também, restos de comida.
A cena me faz lembrar o poema de Bandeira:
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.
O horror que sinto, vendo os miseráveis no lixo, também me faz pensar em Deus. Onde estará a justiça divina? O questionamento me faz lembrar de um livro - O Colecionador - que li há alguns anos. Injustiçada e sem esperanças perante seu algoz, a vítima conclui que Deus não intervém, não pode nos ouvir.
Apesar de minha fé estar abalada pela injustiça, não cheguei a este nível de ceticismo. Por isso, rezo pelos excluídos que catam lixo em frente ao meu prédio. E por todos os excluídos da humanidade.