MUDANDO DE CLASSE(Ou, de carro para bicicleta tudo é transporte)
Eu era da classe média média" quando do lançamento do Plano Cruzado, em 1986.
Sabia que era um plano eleitoreiro, sem base técnica e legal... mas os juízes ministros do STF acharam que a necessidade premente da economia era maior que a lei positiva e indeferiram as liminares requeridas pelos prejudicados, enquanto os economistas mentores do plano exultavam.
Assim, passei da classe "média média" para a classe média pobre. Durou pouco, entretanto, essa minha nova condição. Tão logo consegui juntar um dinheirinho, o Sr. Sarney, mesmo tendo sido esculhambado pelo candidato Fernando Collor, durante a campanha presidencial, aceitou fazer parte daquele confisco geral e assim, graças ao plano económico denominado "Plano Collor", passei da classe "média pobre" para a honrosa e não menos briosa classe "pobre alta"!
A essa altura já estava sem carro(um fusca 1978) e não tinha mais um tostão em investimento. Mas o furacão não havia ainda passado.
Veio o Plano Collor II e lá vou eu mudando de classe novamente; desta feita para a classe "pobre média". Pensei comigo mesmo: - Não é possível que eu caia mais do que já caí. Puro e ledo engano!
Veio o lançamento do Plano Real e, como não consegui fazer o meu salário congelado a temperaturas árticas render o que eles disseram que renderia( e olha que cortei até as despesas necessárias), fui mais uma vez rebaixado e passei a fazer parte da incrível classe "pobre pobre".
Veio o lançamento do Real II(aquele que operava a desindexação da economia) e eu resistindo firme, impávido, mantendo-me aos trancos e barrancos na classe "pobre pobre", lendo tudo sobre homeopatia; aproveitamento da casca de jaca para fazer deliciosos bifes; o teor nutritivo da palma nordestina e já acreditando que a luz do sol poderia realmente servir de alimento... enfim, estava me adaptando à s circunstàncias.
Mas agora, com a "inflação cada vez menor", com o país " voltando a crescer", com a "retomada do desenvolvimento", com a " grande reserva de divisas" e depois da luta incessante(leia-se conchavos, acordos e favorecimentos) para a reeleição do presidente Lula, não estou conseguindo resistir e lá vou eu, ladeira abaixo, ao encontro de uma outra classe económica:
-E existe outra classe ainda, papai? - perguntou meu filho estudante de direito.
-Existirá, filho meu. Será a classe Miserável... e se brincar, será ainda subdividida em miserável alta, miserável média e miserável miserável!