Num domingo desses, há onze anos, eu esperei receber uma terna visita. O país despertava para votar no segundo turno de 2002. Saí bem cedo como de hábito e fui votar no Colégio Tito Pereira, no km 12 em Camaragibe, município onde resido desde 1997.
A visita não seria concretizada. Soube em torno das dez da manhã, em meio à grande mobilização bissexta das eleições majoritárias, da morte do meu irmão.
Na segunda-feira 28 escrevi esse modesto poema ainda engasgado pela notícia e depois de sepultá-lo, mas não de minha memória.
POEMA DE FRATERNIDADE
( Dois meninos)
ao meu irmão VALDIR ANTONIO* (Nenê)
Sentados no muro do tempo,
joelhos feridos no estio
cansados, jogados ao sol
numa rua chamada "do rio".
A poeira barrenta, argilosa,
e a sala frugal, tons azuis,
onde a mãe decorava a parede
com a cara do mago Jesus.
Ali éramos dois, tão meninos
como a vida a correr, centroavante
e os gols fossem amiúde marcados
sem a parca arbitragem constante.
Eram só dois irmãos e unidos
sob algumas crendices herdadas
numa casa-família onde a mãe
na parede frontal em azulejo
Santo António e o menino afixara
piedoso, milagreiro, presente
a quem ela atribuira contrita,
pão diário, transporte, batente.
Contrição que herdou dum passado
arrastando-se pé ante pé
dos meninos que um dia começam
a quebrar as vidraças da fé.
A escola primária e o bonde
sobre trilhos, dormentes, guarida
dois amigos, sinais circunscritos
a abrir a cancela da vida.
Meu irmão que eternizas comigo
tua mão a cortar rente e forte
no volibol subindo além da rede
a porrada no ventre da morte
E quem sabe me frustro e perdoas
por me haveres tirado do tom:
como vou cometer meus 60
sem obter teu labor de garçom?
O barman que servia com brilho
amizade, amor e Martini
vai ficar me devendo essa quadra
por mais que eu a esconda e confine.
Nosso ciclo se encerra: só eu resto
do quinteto da Rua do rio,
o Raul, a Zezé e um cão negro
encantados no eterno vazio.
Não me culpes, perdoa essas linhas
mal traçadas, capengas, triviais,
que a gente algum dia se encontre
numa terra onde mora o jamais.
Nessas ruas do rio navegas,
até quando houver vida e caminhos
a trilhar, sol a sol sobre os ombros
os teus filhos, netos e sobrinhos.
Essa gente tem dito que ronda
certo Deus, em quem crê e com pio,
ai de mim, sou poeta descrente
não avisto horizonte ou navio.
Uma foto num arquivo distante:
dois meninos sentados no muro,
quando um se assusta no agora,
há um outro que jaz no futuro.