
Um homem, capataz de uma fazenda, nos seus oitenta e nove anos, contemplava a fogueira da vida.
Quando estava prestes a ser acesa, lembrou-se da noite de amor de seus pais.
Quando o fogo pegou, lembrou-se do parto, do dia em que veio ao mundo.
Quando as chamas tomavam os gravetos, lembrou-se de seus dias engatinhando.
Quando as toras começaram a ser tomadas pelo fogo, lembrou-se de sua infância.
Quando as chamas tomaram por completo as toras, recordou-se de sua adolescência.
Quando o fogo atingiu seu ápice, lembrou-se do auge de sua puberdade, e de seus dias dourados.
Quando começou a diminuir, lembrou-se dos quarenta.
E, a partir deste momento, as chamas foram perdendo força e intensidade.
Quando a primeira tora de brasa foi ao chão, lembrou-se de seus cinquenta anos.
Quando o primeiro quarto das toras desabou, lembrou-se dos sessenta.
Quando metade delas já eram brasas espalhadas pelo chão, veio à sua mente o setuagenário de seus dias.
Quando três quartos já eram brasas ao solo, os oitenta vieram à sua memória.
Restava apenas um quarto das toras abrasadas.
No dia seguinte, o capataz de 100 anos despertou. Apoiado em sua bengala, foi caminhando lentamente até o local aonde fora montada a fogueira.
Com olhar reflexivo, mirou o que dela havia restado.
Muitas cinzas; poucas brasas já apagadas.
Agachou-se com dificuldade.
Trêmulo, uniu suas mãos em concha e encheu-as de cinzas.
De joelhos, arrastou-se até a beira do açude que ladeava a fogueira, erguendo em seguida suas mãos na altura de sua boca.
Vagarosamente, plenou de ar seus pulmões.
Olhou para o sol que surgia por detrás do monte verde que lhe defrontava.
Num suspiro leve e sereno, assoprou as cinzas, as quais se foram com o vento.
E, enrijecido pelo cessar abrupto das batidas de seu coração, caiu para trás.
E, da fogueira, só restaram as cinzas, e algumas brasas que se converteram em carvão.
O vento soprou sobre ela, levando consigo suas cinzas.
E, o que restou do carvão, a chuva, o vento e o tempo encarregaram-se de despachá-los.
E a fogueira se decompôs, tal qual o capataz.
E assim é a fogueira da vida. E assim é a vida do capataz.
Sítio do Colmeia, Pirapitinga-MG, 29 de julho de 2017
Por Leandro Tavares |