Estendido na cama, olhava para o céu, via uma lua em arco escondida em um céu nebuloso. Sentia o seu coração bater e um cansaço morrinhento pelo corpo. Tentava um momento de relaxamento que lhe trouxesse uma paz nem sempre possível. Tantas idéias, se questionava quanto a respostas, haveria respostas? Muito mais dúvidas. A vida era um emaranhado de dúvidas. E pensar que havia pessoas que tinham certezas, como era possível?
Pensou em escrever, mas o repouso falou mais alto. Ouvia um som distante de um filhote de cachorro chorando, devia estar sozinho. Com satisfação, ouviu o sonoro latido do cachorro do vizinho, estava sumido ultimamente. Chegara a sentir falta da sua presença sempre solitária no quintal, já fora mais animado em suas andanças e latidos, o que acontecera?
Não suportava assistir aos programas da TV com coberturas globais da "Guerra ao Terror", com descrições detalhadas dos ataques por ar e terra ao Afeganistão, os modelos dos aviões, mísseis e bombas, os refugiados, o antraz etc. Nem estava mais lendo os jornais, pelos mesmos motivos. A mídia vivia disso, mas ele exercia a sua opção de escolha, um dos direitos que lhe restara. Ante tantas obrigações, economizar energia, pagar (tantos) impostos, escapar dos buracos nas ruas e nas estradas, e das multas sorrateiras que chegavam pelo correio, encarar o horário de verão... pelo menos, ainda podia escolher o que queria ver, ouvir e ler no noticiário, programas e filmes.
Já não buscava mais sentido, já se fora o tempo dos arroubos metafísicos, filosóficos. Acreditava que aprendera a aceitar as circunstàncias que surgiam a cada momento, com uma certa receptividade... embora certos fatos ainda o incomodassem, como decisões políticas e económicas ineptas que se refletiam diretamente em "seu próprio lombo", ou seja, em seu bolso e em sua qualidade de vida.
Seu filho e sua filha chegaram e a cachorrinha correu entusiasmada. Que alegria de viver! Tentava aprender com ela esse natural equilíbrio. E não era só instinto, as suas ações e reações eram tão próximas das humanas que ultrapassavam de muito o instinto!
O instinto, sem dúvida, era a base da vida de todos, tanto animais quanto humanos. Mas havia a mente, a sua mente teimava em duvidar e desacreditar sempre, deixando-o desorientado e tolhido. "Puxava-lhe o tapete" e, então, precisava começar tudo de novo... Interferia em seus relacionamentos e em seus projetos, lhe perturbava. Ah, Prometeu!
Tão poucos encontraram a paz de espírito. Ele, as vezes, dela se aproximava: quando escrevia e soltava o seu "lobo íntimo", ou em alguns sonhos de que costumava se lembrar, ou em alguns breves momentos em uma meditação.