Tem dias que a gente acorda e quer ser qualquer coisa, que não nós mesmos. Comigo acontece sempre. Já quis ser outra pessoa, quis ser pedra, árvore, ave. Quis ser mar, flor, bicho. Até um abajur eu já quis ser. Mas aí olho no espelho e tudo o que sou sou eu mesma. Nada diferente. Talvez uma olheira a mais, ou uma espinha nova. Mas no fundo sou eu, figurinha batida.
Nesses dias a gente fica com a sensação de que está tudo errado, fora de lugar. Aí se quer sumir, já que não dá pra ser outra coisa. Tudo em volta parece diferente, impessoal. Tudo parece ser o que não deve ser, ou o que a gente não quer que seja. Qualquer pessoa é mais interessante que você. Qualquer vida, qualquer trabalho é melhor. Você daria tudo pra ser essa outra pessoa. Ou outra coisa qualquer. Mas não tem jeito. Você é você e pronto. Não tão contente com isso, mas conformado, você segue o dia, esperando que ele acabe logo e leve essa angústia de não poder ser o que não é.
O dia passa sufocado. Chega a noite e você deita. Trava uma luta com o sono. Briga! Aquela insónia insistente não te deixa esquecer o que te atormentou durante todo o dia. Confusões de pensamentos te torturam. Você se confunde. Quase enlouquece de tanto pensar e de tanta loucura, já nem sabe quem é. Aí então, você dorme em paz.