Por trás do seu protetor de olhos e da máscara, que protegia a boca, ela fazia seu trabalho. E, nas horas vagas, era uma grande cantora. Mas como era geminiana, fazia tudo isso com muita naturalidade. Examinava e cuidava das bocas dos seus pacientes com a mesma naturalidade com que subia ao palco e modulava a sua voz, com a competência de uma profissional. Sim, era "profissional" em ambas essas atividades, só que em uma delas se formara após anos de estudo e dedicação, em uma universidade. E, na outra, adquirira experiência aos poucos, cantando com um grupo de amigos, depois ensaiando durante longas noites com um conjunto musical com quem se entrosara, utilizando a sua própria simpatia pessoal, e, em suma, o seu talento canoro, sem a menor dúvida, excepcional.
Era uma vida dura, sob certos aspectos, pois trabalhava todo o dia em seu consultório, e, Ã noite, ensaiava durante parte da semana, e nas sextas-feiras, sábados e domingos, se apresentava, com os seus colegas músicos, em restaurantes, casas de shows, boates.
Mas se sentia feliz, em geral, pois tanto apreciava tratar dos dentes dos seus pacientes, quanto soltar a sua voz quente e potente em melodias que agradavam ao público e provocavam aplausos demorados.
A sua vida sentimental estava, no momento, meio em suspenso, após algumas experiências com o sexo oposto que lhe provocaram algumas dolorosas marcas íntimas. Mas, mesmo assim, costumava encontrar-se, de vez em quando, com um antigo namorado que lhe telefonava, e aí, relembravam alguns antigos momentos de prazer, mas com um gosto muito mais de uma rotina prazerosa, do que de uma paixão avassaladora.
E, assim, o tempo ia passando, e ela também não se preocupava muito com isso. Sentia cada momento como se lhe apresentava, sem se entregar a maiores cogitações filosóficas, religiosas ou metafísicas. Para quê? Não adiantava se ficar pensando muito mesmo, nunca se chega a nenhuma resposta objetiva. Uma das suas amigas era budista, e já a convidara a comparecer, com ela, a um belo templo, que havia em um local bem aprazível, e que, por sinal, se localizava próximo da sua casa. Mas nunca se animara a aceitar. Não queria nenhum tipo de compromisso religioso, ou semelhante a esse, pois além de não lhe sobrar muito tempo, realmente não lhe motivava. Via pontos positivos, quando essa sua amiga lhe explicava, pacientemente, aspectos da doutrina, como o fato de procurar a sua própria verdade, lá no seu íntimo, e viver em consonància com ela; a benevolência e a paz interior que se alcançavam, a medida que se praticavam as meditações. Mas, do seu jeito, ela fora desenvolvendo a sua própria "doutrina", e costumava também praticar a sua "meditação", só que do seu jeito, e, as vezes, ia fundo, e sentia uma paz gostosa, e se surpreendia de como o tempo passara, e ela nem se apercebera! Achava até que era meio "zen", não é assim que se diz? Tinha o seu jeito próprio de viver, e de conviver com as pessoas, e de escolher as suas amizades, e de ler os seus livros, e de escrever em um caderno pessoal aquilo que valesse a pena, de acordo com o seu foro íntimo, suas emoções, seus sentimentos, seus pensamentos. A sua amiga costumava dizer que era talentosa também ao escrever. Achava que dizia isso mais para agradá-la... escrevia sem maiores pretensões.