De início, não havia nada de que se lembrar, portanto não havia vida. Mas é que tempo e mudança é terrível, coisa que não acaba e nunca começou também, porque quando nos tentamos lembrar onde começou, nós vemos que foi justamente quando acabou alguma coisa... ou não. É rotina virando plasma incrustado e perfilado em nossas veias, memória fotográfica na cabeça, na cidade grande da escola e do trabalho, do transporte e do almoço, e das pessoas... É o novo, é o "começando algo" mais uma vez, muitas vezes repentino e inesperado, se transformando em paranóia e repetição, se transformando em velho e rotineiro, dia-a-dia necessitando de imprevisto e novidade. O que era rotina acaba, e chega a saudade, porque as pessoas são legais e agora que se foram, e a falta faz. Eram tão amáveis e sua companhia era ótima, no final das contas, até mesmo aqueles que com o tempo se tornaram insuportáveis, e, aquele lugar que íamos todos os dias depois de sair de outro lugar, era um estado de espírito, algo mais, e que agora se transformou em nostalgia, em breve será um rasgo na mente, ou fluídos temporais e sentimentais representados em objetos e souvenirs e um papel desenhado que faz lembrar uma menina tão graciosa e apreciada... saudade. Os lugares onde costumávamos ir e as festas improvisadas onde estávamos satisfeitos ou iludidos por algumas frivolidades em forma de uísque e de cigarro. Queria o perfume, a seda delicada, os cabelos longos e lindos de outrora, que já não são mais, ou se perderam no tempo e estão inacessíveis pra mim. E Ã s vezes você pensa que não vai durar nada, e você começa, você entra e sai de lá todos os dias, até que não percebe a sequência que criou, e as pessoas que foi conhecendo lá, até um momento em que nem pensa-se mais em voltar atrás e parar, vai até o fim, e, se antes não queria mais ir, agora no final de tudo não quer deixar de ir, é despedida, é um rastro de vivência derramado sem querer num canto de mundo pequeno. E um encontro muito do acaso com aqueles do passado fará se sentir bem e mal ao mesmo tempo, porque parece que saudade fere mas vicia. E despedida, e recomeço, e entremeço, estremeço até o fundo da alma ao me deitar e lembrar de tudo, ou lembrar aos poucos, porque amanhã vai começar outra rotina, amanhã há vida. E porque, de início, não havia nada de que se lembrar, portanto não havia vida...