A BORBOLETA AMARELA
Ela chegou quietinha, sem ser convidada. Encontrou a porta aberta e foi logo entrando. Olhou os móveis velhos: o sofá, a televisão, o armarinho. Pousou delicadamente sobre a mesa de centro, quase derrubando o cinzeiro. Encostou-se em minhas costas sensualmente. Deu para sentir o perfume leve que seu corpinho exalava, talvez roubado de alguma flor das vizinhanças. Percebi sua respiração rápida e ofegante. Agarrou-me fortemente, com seus trejeitos meio loucos. Suas pernas balançaram no ar e trançaram-se firmes sobre as minhas. Tentou fugir para o pequeno quarto ao lado. Quis bater as asas, mas já era tarde: estava definitivamente presa entre aquelas quatro paredes. Deixou-se ficar. Deixei-a ficar. Estimulei seu vóo geométrico de fêmea no cio. Pousou exuberante na cama desarrumada. Aproximei-me.
Suas asas afoitas batiam agora frenéticas, ora rápidas, ora lentas, numa dança ritmada. Para cima, para baixo, num brinquedo gostoso. Dava prazer vê-la assim. Parei um instante; sentei-me no chão só para olhá-la sobre a cama.
Amile, como gostava de ser chamada minha borboleta amarela, quedou-se exausta e feliz, por um momento. Em outros lugares, em outros vóos, tratavam-na como simples borboleta. Ela gostava de ser tratada como gente. Algumas vezes até sentia como gente. Mas no fundo, no fundo, não era gente. Era só uma borboleta amarela. Deixei-a gozar aquele minuto de humanidade.
Saí. Fui à geladeira e abri uma cerveja. Voltei para o quartinho que brilhava refletindo o amarelo aveludado de minha borboleta. Acendi um cigarro com preguiça. Curtindo a cena, adormeci sossegado ao seu lado. Senti um leve roçar de lábios nos meus; doce beijo. Parecia um sonho. Pela janela do quarto, Amile, minha querida borboleta amarela, lindamente vestida e perfumada, bateu asas e voou. Só restou um grande vazio no travesseiro esquerdo da cama.