NOITE DE SERESTA
Nos campos nas noites frias e escuras, os animais noctâmbulos, desvirginam o breu silente com suas melodias peculiares. O grilo quase falante, desperta a triste coruja, que de um buraco de tatu sai para caça. Os pirilampos dão aos negros campos, um ar de esperança, pois, num instante de cadencia vemos a silhueta de uma paca que tritura nos dentes um caroço de tarumã.
O dia amanhece, e o negrume da madrugada fria esvai-se. Não sei para onde, mas não vejo a paca, o buraco de tatu fundo e negro, os grilos pululam pela relva, só que afônicos! A passarada de galho em galho gorjeia uma melodia. Ouvimos o toc toc do pica-pau o fla-flar das asas ligeiras do beija flor e o arrulhar das asas brancas, que em bandos esvoaçam perto do manancial. Não muito longe ouço o cantar intermitente da seriema, e tudo não muito longe. Assim é a vida do campo. Cada voz é conhecida e damos por falta até do sabiá que mostra sua fidalguia nos pomares, onde perto de seus ninhos cantam doces canções.
Ao entardecer os bandos ou mesmo os eremitas procuram seus aconchegos de pernoites. Bandos de guachos singram o céu, lépidos os pardais nas cidades procuram os beirais das casas, enquanto os pássaros pretos procuram uma frondosa árvore, os anus preferem arbustos e os cipoais, outros as touças de taquara... Cada pássaro cada cantor do coro da floresta depois do ensaio do entardecer procura o seu ninho para dormir. Muitos se resguardam enquanto outros, sem lua, só breu saem de seu repouso diurno.
Na beira do brejo é noite de seresta quando o sapo dá o primeiro coaxar as gias respondem, as pererecas e até alguma cobra sibila, os grilos também acompanham o roc-rec das pererecas chamando chuva...
De repente ouço um estampido mais forte do que o provocado pelos noctívagos, então sei que é o caçador de pacas. Tudo se torna silêncio a não ser o eco longínquo do tiro que avisa aos inocentes que chegou o fim da seresta.