Por muito tempo estive preso à uma limitada gaiolinha. Confinado como um animal. Acuado como uma presa.
Minha dona me dava o básico, e sem maior conhecimento, achava que era feliz. Achava que aquilo era vida. Trilava contente.
Esporadicamente ela me soltava para que minhas asas pudesse exercitar, sabendo que sempre voltaria para o que eu, julgava, ser meu destino.
Em um inesperado dia ela me libertou. Não entendi e triste fiquei. Saí a voar sem rumo, do leste ao oeste, do sul ao norte, do pôr ao poente do sol.
Tive que buscar minha própria comida, minha própria água, enxugar minhas próprias lágrimas, curar minhas próprias chagas.
O vento me levou à ela e a trouxe a mim novamente por várias vezes. Em algumas delas, havia docilidade e simpatia. Em outras, rancor e pesar.
Sei que ela enfrentou e enfrenta momentos difíceis. Tento ajudá-la com minha cantoria. Tento fazer com que ela enxergue as coisas que a deprimem. Tento fazer com que veja as coisas que a definham.
Estive, repito, por muito tempo preso à uma gaiola. Gaiola chamada paixão. Hoje, ela vive presa em uma gaiola ainda maior, chamada cegueira.
E eu estou livre. E como é bom saber o que fazer com a liberdade. Saber voar, saber cantar, saber ser feliz. Como é bom SABER SER LIVRE. Como é bom voar.