Era uma tarde quente, e, forçado pela sede, entrei num pequeno restaurante de terceira categoria no Centro Velho de São Paulo, que, apesar de reurbanizado, ainda é um antro de desocupados, vigaristas e valentões que circulam pelo Vale do Anhangabaú. Estava eu tomando meu refrigerante quando notei numa mesa ao fundo, um sujeito solitário, com o rosto enfiado entre as mãos. Eu e ele éramos os únicos fregueses da espelunca. Parecia muito solitário e eu diria até que estava chorando. Ao seu lado, havia um copo de whisky que ainda não havia sido tocado. Então subitamente, entrou um sujeito mal encarado e pediu uma cerveja. Enquanto tomava, gritou para mim e o sujeito ao fundo:
- Um de vocês dois vai pagar a conta!
Resolvi concordar com o rufião para que a situação não se complicasse e fiz sinal com o polegar que pagaria a conta. Entretanto o sujeito solitário nem deu pela presença do valentão. Isto o irritou e ele foi até sua mesa.
- Tentando me ignorar, safado? Disse, enquanto dava um soco na mesa. O homem o olhou com olhar distante e nada respondeu, voltando a enterrar o rosto entre as mãos. Então, o valentão, pegando o copo de whisky bebeu-o todo de um só gole e gritou, enquanto chutava a mesa.
- Preste atenção em mim, seu cretimo! Você vai pagar minha conta! Ta me ouvindo?
O homem levantou a cabeça calmamente, e encarando o valentão, disse, enquanto passava as mãos pela cabeça, ajeitando os cabelos com os dedos:
- Hoje não é meu dia! Definitivamente! Pela manhã recebi um telefonema anônimo dizendo que minha mulher me traía com meu melhor amigo. Fui lá e flagrei-os. Desesperado, não fui trabalhar, e meu chefe que há muito esperava uma oportunidade, demitiu-me. Mais desesperado ainda, saí em alta velocidade e bati o carro, destruindo-o completamente e machucando um monte de gente. Claro que não tenho seguro! Aí resolvi acabar com minha vida miserável. Venho a uma espelunca vazia, escrevo uma carta de despedida e então chega um desgraçado como você e toma meu copo de whisky envenenado. Que merda! Hoje não é meu dia!