Divino Nicolau, que a palmatória,
triste insígnia de mestre de meninos,
comigo partilhaste... Dois destinos
opostos nos fadaram: tu à glória
imorredoura dum lugar na História,
e eu à vil condição de valdevinos.
Ah, meu amigo, quantos Tolentinos
como eu caíram nesta luta inglória!
Sem serem bafejados da ventura,
quantos foram cavar a sepultura
a um canto d ´aula em desesperação!
Deles ficou somente o esquecimento...
Não tinham, Nicolau, o teu talento
de mestre de meninos pedinchão!
..........
Este soneto que eu dedico a um colega de há dois séculos e meio, nasceu dum diálogo virtual com outro colega de agora.
E que diferença entre os dois!
O Nicolau, o de há dois séculos e meio, só queria largar a palmatória, sentia-se cansado de ser mestre de meninos. E tanto requereu, tanto pediu, tanto importunou (naquele tempo não se dizia chateou), que o tiraram da aula e o fizeram oficial de secretaria.
O Nuno, o colega de agora, apesar de se ter aposentado recentemente, não é capaz de largar a palmatória — continua a dar aulas. Dizia-me à pouco o bom do Nuno que ainda não se tinha habituado à aposentação e continuava leccionando umas cadeiras. Quanto a mim — e o velho Nicolau concordaria comigo se ainda andasse por cá — aquilo é caturrice do Nuno... ou pelo menos devoção...
Eu cá por mim, que me aposentei na viragem do século, estou totalmente recuperado. Nem à pancada regressaria eu àquela triste vida de escravidão a horários, a programas , a currículos, a syllabuses (ou será syllabi?). A forma correcta fica à escolha do Nuno que ele é que é mestre de latim.
Como lhes digo, eu estou recuperado. Aulas, nem me lembro delas, e se mas fazem lembrar, começam-me logo os olhos a arder... não sei se é vontade de chorar, se é reminiscências do pó do giz...
Mas ainda não vos disse como é que tudo isto começou.
Foi o Jornal AS FLORES que chegou. Trazia um artigo do Nuno, Nuno Vieira, chama-se (o artigo) Do Outro Lado da Saudade. Li, gostei e mandei um e-mail ao Nuno a dar-lhe os parabéns. Ele respondeu-me e disse aquilo de não ser capaz de se acostumar à aposentação. Eu pus-me a pensar naquela devoção do Nuno à palmatória, lembrei-me do Nicolau Tolentino, e pronto... O resultado está aí: um soneto meu e cinco do... colega Nicolau...
Aí vão os do Nicolau:
.....
As ferradas muletas encostando,
No banho entrava um velho macilento,
A quem eu em sisudo cumprimento
Seus males lastimei, quase chorando:
A trémula cabeça um pouco alçando,
Me pergunta o convulso rabugento:
—Quem és tu, que assim vás o meu tormento
Com tristes reflexões acrescentando?
—Eu sou, lhe digo, um ramo desgraçado
Da antiga geração dos Tolentinos;
A dar escola vivo condenado.
—Maldiz, ó moço louco, os teus destinos;
Que não deve chorar alheios fados,
Quem tem de ser mestre de meninos.
....
Nesta cansada triste poesia
Vedes, senhor, um novo pretendente,
Que aborrece o que estima a outra gente,
Que é ter no mundo cargos de valia.
Sobre alto trono há anos que regia
De dócil povo turba obediente:
Mas quer antes sentar-se humildemente
Num banco da real secretaria;
Qual modesto capucho reverendo,
Que em fim de guardiania trienal
Passa a porteiro as chaves recebendo.
Em mim conheço vocação igual:
E co´a mesmo humildade hoje pretendo
Passar de mestre a ser oficial.
.....
Treze invernos, senhor, tenho contado
Depois que o fado meu, triste e mesquinho,
Sobre alto assento de lavrado pinho,
Me faz ser de crianças escutado:
Meti à força este rebelde gado
Dos amenos estudos no caminho;
E alçando um velho, crespo pergaminho,
Por ele sãs doutrinas lhe hei ditado:
Entre mim, e esta brava gente moça,
É já tempo, senhor, de assentar pazes;
Porém sem vós receio que não possa:
Interponde palavras eficazes;
E fazei com que eu dê, por mercê vossa,
Sueto para sempre aos meus rapazes.
.....
De bolorentos livros rodeado
Moro, senhor, nesta fatal cadeira;
De quinze invernos a voraz carreira
Me tem no mesmo posto sempre achado;
Longo tempo em pedir tenho gastado,
E gastarei talvez a vida inteira;
O ponto está em que quem pode queira,
Que tudo o mais é trabalhar errado.
Príncipe augusto, seja vossa glória;
Fazei que este infeliz ache ventura;
Ajuntai mais um facto à vossa história.
Mas se inda assim me segue a desventura,
Cedo ao meu fado e vou co´a palmatória
Cavar num canto da aula a sepultura.
.....
Se me vedes, senhor. a vosso lado,
Não me julgueis teimoso requerente;
Sou um calado, manso pretendente,
E só venho fazer-me a vós lembrado;
Quando ao destro cocheiro for chamado,
Que os fogosos cavalos apresente,
Permiti-me que eu vá, entre a mais gente,
E vos dê numa vénia o meu recado;
Se o trouxerdes, senhor, bem na memoria,
E puserdes em mim olhos beninos,
Fareis acção ilustre e meritória;
E eu, por desfeita, aos bárbaros destinos
Quebrarei neste pátio a palmatória,
Triste insígnia de mestre de meninos.