Salim não mente?
— Não! Devem existir respostas para tudo isso?
— ...
— Será esse o caminho que devo trilhar para que eu possa encontrar o Eu perdido? Voltar ao ponto de onde partira?
Agora Salim não tinha mais dúvidas de que a mestra queria levar-lhe ao encontro do seu Ser criança, tão latente nele, mas que ele não tinha coragem de chamá-la para brincar. Brincar até que brincavam. Mas brincavam eternamente de esconde-esconde.
Alguma coisa soprou-lhe o coração:
— Vá Salim! Encontre a sua criança! Não deixe ela se esconder para nunca mais lhe aparecer! Ela é o seu depositário de ternura. Somente ela é que lhe dá a permissão para conviver com outras crianças. Envelheça, mas sempre junto da sua criança. Sem ela você poderá se tornar um velho solitário e amargo.
Era, realmente, um ambiente infantil. Nas paredes havia balões de várias cores; no chão, respingos de confetes — mas havia mais confetes no coração. Ainda estava num canto a caixa de brinquedos que Salim não se permitiu.
Eis que chega o segundo dia. É proposto a Salim percorrer o Cosmo de uma ponta à outra. Que absurdo! Será que eu posso encontrar Deus? Aventurou-se pelo micro e não encontrou o Nada, aventurou-se pelo macro e não conseguiu encontrar o Todo. Desolado, ficou no meio do caminho. Não lhe restava — mais —, outra alternativa a não ser caminhar com a História.
Salim só assentiu ao chamado da mestra quando ele chegou da viagem. Correndo, foi de encontro ao elefante que estava no pátio do supermercado. Pegou uma enorme escada, seis metros se não me engano, encostou-a nas costelas do elefante e, ainda na escada, tratou-se de desvencilhar o elefante daquela garrafa de refrigerante. Depois, subiu até ao dorso, caminhou por ele e montou-se no seu pescoço do mastodonte; com a mesma faca que cortou as amarras da pata, cortou o resto de amarras que havia em outras partes do corpo e, em seguida, ordenou:
— Vamos elefante! Voemos até à lua! Preciso encontrar com o Pequeno Príncipe — o príncipe encantado.
Foram. A viagem durou quatro dias. Delirou com a possibilidade de chegar às estrelas. Mas foi cauteloso. Poderia se perder e não voltar. Preferiu, então, esperar o dia em que ele estivesse mais leve e solto das querelas terrenas. Na lua não encontrou o pequeno príncipe. Porém, na volta, ele encontrou uma pessoa querida a quem deu carona para a terra. Era ele próprio e consciente de que, se antes ele não achava explicação para aquele elefante concreto, tão leve, era porque ele sentia sobre si a pata do elefante ideal, com o peso real de um elefante multiplicado por cinco, a esmagar-lhe.
Quando Salim chegou da lua, para pisar a terra, ele escorregou pela tromba do elefante. Em terra firme ele se sentia senhor de si, todo poderoso, tão grande quanto um elefante multiplicado por cinco, portanto, podia ocupar o maior espaço em qualquer lugar. Seria observado, seria admirado e, de tão forte, seria capaz de, com a sua tromba, extrair o seus Leões invisíveis e arremessá-los ao espaço. Mas sabia também que para matar Leões visíveis carecia de uma boa savana para se alimentar. Porque, do contrário, ele seria apenas mais um elefante inflado, do tamanho de cinco reais elefantes africanos, que logo, logo murcharia. Era apenas uma questão de tempo. Salim não mente.
A IMAGEM DO ADVOGADO