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Pássaro Ferido
Mordo tuas orelhas como a lua morde
as azeitonas nas oliveiras
Roça o veludo que envolve a polpa e as
amassa devagarzinho até deixar ali a sua marca
Sopro devagar, bem devagar, estórias de sexo
Um beijo “caliente” me diz que não estás
ausente
És ali a amiga, a confidente
Não faças juras ao vento, ele não se
comove com o teu lamento
Eu sim, sinto-te dentro de mim
O sexo é assim: eu em ti e tu em mim
Ajudo-te e depor as armas, a descansar das derrotas
que tens andado a suportar
Agora és tu, quero-te ouvir falar
O que sabes do amor. Que sabor tem beijar alguém?
Não queiras me olhar como a contar quantos beijos
andei para aí a desperdiçar
Deles só ficou o asco e uns sulcos que o arado fez ao
passar
Qualquer dia faço uma plástica para deles me livrar
Depois escrevo um poema para os exorcizar
Einstein escreveu a Freud para lhe perguntar se via
alguma possibilidade da humanidade mudar
Freud respondeu que não, a humana criatura não
aprende nem com a desventura. Cai em todas as
ratoeiras, é só sabê-las armar. Tu não passas de
mais uma ratoeira onde estou a pisar
Em breve, de novo, vou ficar aquele pássaro
ferido sem vontade de voar.
Lita Moniz
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