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Poesias-->CUNHAPORÃ, UMA HISTÓRIA DE AMOR - V - A ESCOLHA -- 29/06/2002 - 21:31 (J. B. Xavier)
CUNHA PORÃ compõe-se de onze capítulos. Aconselho aos leitores que efetuem a leitura a partir do primeiro, seguindo seqüencialmente a ordem crescente, para que o entendimento do enredo não fique prejudicado. * * * CUNHAPORÃ - PARTE V - A ESCOLHA J.B.Xavier Suspensas no ar as palavras ficaram Ecoando em todos os que as escutaram, Criando mil sonhos de amor, de perigos. Guerreiros e velhos - gentil comunhão - Deitaram seus arcos e flechas no chão: Mudo sinal de que eram amigos. E bradou Ygarussú: “Honras as tabas dos Grandes Tupis! Se Yara é quem quis Findar tua procura, Aqui tu serás, Aqui viverás Contente e feliz. Se, porém, desejares Os outros lugares Que conheces tão bem, apraz-me dizer: Os Tupis, teus amigos, Quebrarão as lanças Dos teus inimigos. Nada temas. Nada e ninguém! E quem, meu amigo, foi a escolhida? Por quem tu lutaste P’rá haver-te aqui? Que moças desejas Daquelas adiante?” Os olhos, num instante, Do ansioso Nhuamã , Pousaram brilhantes, Sorridentes, Nos olhos ternos, No olhar desafiante, Nos lábios, no corpo, No belo semblante Daquela que um dia Esposa seria Do Grande Oyakã. E chispas partiram Do olhar febril Da tupi e do charrua, Brilhando luminosos Mais claros que a lua. Ygarussú percebeu Os olhares tão ternos, E o terrível instante O levou aos infernos. Restava saber Se era ela a escolhida. Se assim fosse, o ousado Pagaria com a vida! “Escolhe!” - disse o Oyakã . “Aquela!” - o charrua disse. “Conforme Yara predisse! É ela Cunhaporã ?” E Ygarussú, qual felino, De repente, em desatino, Num salto pôs-se de pé. “Tu a conheces? de onde?” “Ah!, meu guerreiro ilustre! Por quem são as minhas preces Que só o eco responde? Então quem é que meu sono Embala na madrugada? E quem, em meus abandonos A mim vem, como uma fada? Esse rosto afogueado Garanto, nobre tupi Nunca jamais ter olhado. Cunhaporã nunca vi! Nunca ao meu sonho dei nome. Somente aprendi a amar O fogo que me consome Nas belas noites de luar. Mas chegou-me enfim, um dia, Notícia de tal beleza, Que herética, desafia A da própria Natureza! Viandantes cá do norte Traziam notícias dela, E de como viram a morte Dos que ousaram querê-la. Sei agora! a heresia Chama-se Cunhaporã ! Mais linda que a luz do dia, Mais quente que o sol da manhã.” “Acaso estás consciente Que essa moça querida Há muito tempo, na selva, É tida como rainha? Que um dia ela vai ser minha, Que já esta prometida? Acaso estás consciente Que ela é minha propriedade? Os deuses o querem assim, E desde sempre a guardaram, E a mim, então, a entregaram Desde a mais tenra idade? Acaso estás consciente Do destino que te espera Por tua escolha infeliz? Tua vida arrancarei! E teus restos jogarei P’rá saciarem as feras.” “O amor, Grande Guerreiro, Bem como o sangue, é nobre! Não se encobreUm com o outro! E sempre que se misturam, O que resta é a tristeza. O amor é sempre riqueza. Eu, que jamais fui vencido, Nem pelas armas, Nas guerras, Nem nos atos Por nobreza, Nunca havia conhecido Um guerreiro destemido Que ao oferecer abrigo Ameace os de outras terras! Mas digo-te, Grande Oyakã : Longe de mim a intenção De ferir o coração Do nobre Chefe Tupi, Da gentil Cunhaporã. Coragem é minha consorte. E é, talvez,maior que a tua. Não se intimida um charrua Com ameaças de morte! Pasma a turba! Jamais algo tão ousado fora assim pronunciado No reduto dos tupis! Uma lança cruza o ar com endereço acertado: O coração do charrua. Uma esquiva, Um salto ao lado, Um agarrar. Depois a lança a exibir. Volta ela pelo ar A atravessar O corpo do tupi. Braços e lanças envolveram o insano. Sangue, estertor, morte, E o esforço sobre-humano. Gritos. blasfêmias, gemidos atrozes Ecoaram desse coro de mil vozes... “A súcia do arvoredo!” - A voz de Yara sussurrou. E o bramido da luta, O serpentear da disputa Pela taba se espalhou. A horda anovelava-se Num furacão de poeira. Lanças cruzavam o ar, Flechas loucas a voar Assassinas e ligeiras. O charrua rodopiava E a morte ia espalhando. Uns caíam desmembrados Naquele cenário horrendo, E outros, ao longe, Lentamente Iam morrendo. Ygarussú , à distância, Imóvel, observava O guerreiro que feria E a morte distribuía, Mas que, aos poucos, Cansava. Finalmente ele caiu, E a turba caiu-lhe em cima Sequiosa de vingança. Cunhaporã , sem esperança, Viu o início da chacina. “Poupe-o, Ygarussú ! Eu sou tua prometida! Não manche com esse crime A nobre taba tupi. Salve-o! Poupe-lhe a vida!” “Terei notado em tua voz Certo tom de desencanto? E por quem é esse pranto Que desce assim, tão veloz? ” “Poupe-o! Toma-me a mim! Que guerreiro assim valente Não pode acabar nos dentes Das feras desses confins! “ “Alto!” - Bradou o tupi. Seu grito ecoou no sertão Parando no ar a mão Que descia o golpe final. “Não lhe façam nenhum mal! Quero-o vivo!” A mão vacilou na descida. A recusa em obedecer... Como o relâmpago Uma flecha partiu Do arco do Oyakã , E o teimoso tombou, Já sem vida... E puseram o charrua amarrado, indefeso No poste, ao lado de um lume aceso No centro da taba, de toda a aldeia. Do corpo seu sangue em torrente escorria, E a turba gritava em louca histeria Pisando seu sangue empapado na areia. Assim o Destino atirou suas malhas. Ao longe jaziam os heróis da batalha. Essa foi, para muitos, a guerra final. Que deus protegia esse índio valente Que em tão pouco tempo matou tanta gente, Lutando apenas por seu ideal? “Não contem os mortos! Não quero saber! Charrua maldito, tua hás de morrer! Enterre-os na mata. A todos bendigo! E tu, Oh, charrua, que a morte trouxeste, E que em forma de amor disfarçaste a peste, Tão logo puderes, lutarás comigo! Cada um dos guerreiros tupis que tombaram A honra da taba, valentes, lavaram, E irão muito em breve Tupã encontrar. Pajé, os ungüentos! curai as feridas. Do louco charrua, a mísera vida Eu quero, em breve, sozinho, tomar. Seu sangue na selva eu espalharei E ao longe, nos pampas, eu lá levarei Notícias da morte do ‘Grande Nhuamã‘. Todos na selva vão vê-lo morrer. Troféu de seu crânio eu hei de fazer P’rá honrar nossos mortos e Cunhaporã.” FIM DA PARTE V * * *