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Poesias-->A Casa Assombrada -- 21/01/2003 - 22:31 (Luísa Ribeiro Pontes) |
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A Casa Assombrada
Abro as portas da casa assombrada
para que lhe bata o sol e o vento ocre,
agreste e inóspito da madrugada.
Liberto um a um os espíritos amplos
que vaguiam sombrios e ébrios pelos cantos
na incerteza da luz que lhes fugiu...
Visito os quartos um a um em dura frialdade,
rangendo as portas dos armários vazios,
mas mantendo os cheiros inebriantes
dos velhos estios.
Quantos ali foram passados,
em risos e jogos inventados,
crianças que fomos, ali deixámos
o eco das gargalhadas...
Ouvem-se ainda passos de mulher
em saltos altos, e um riso cristalino
quase metálico. Outros e outros risos
e sorrisos, ou apenas esboços de sorrir,
ou sorrisos que se ficam pelo olhar...
Corro e ainda vejo uma saia
que ondeia ao vento
no perfeito enquandramento
da porta contra o azul do céu.
Mulheres da casa.
Fitam-me da vida que viveram em retratos
cor das sombras, olhos profundos e densos
como em muda censura.
Arejo todos os recantos,
viro todos os retratos,
fecho todos os armários e das gavetas
retiro inefáveis saquinhos
de doce alfazema sem cheiro,
rendas e bordados magníficos,
toucados de cetim e espartilhos,
saiotes enrendados de ternura
e o crochet das mantas e dos tapetes
e das cobertas, crochet, sempre crochet,
tanto fio tecido e tanto enfado,
tantas horas e tanto novelo enleado,
tanto tempo do passado,
que se passou passajando meias,
bordando em bastidor de bambú,
fazendo renda e esperando,
sempre esperando, coração a nu.
Liberto. Liberto estas mulheres
que aqui ficaram, porque sempre aqui estiveram
e nenhum outro espaço povoaram
e porque aqui ainda deixaram
em cestinho de renda, as suas pobres ilusões..
Chamo o mestre de obras e começam as remodulações.
Noite de 21/01/03
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