daqui do alto desse satélite de onde te fotografo.
Quisera saber envelhecer como tu,
nobre e forte,
sem esse vinho que embriaga,
sem esse fumo entorpecente.
II
Essa lua paralisada,
artificial e desarmada,
que as águas imprecisamente refletem,
está impressa na mente mitológica
dos meninos holandeses e coreanos.
A solidão desmancha-se em gritos
e sustos dos que se escondem nas vielas
e fumam pelas calçadas, abdicam da vida,
despem-se e mostram suas bundas aos cachorros.
Seres minúsculos como aeroplanos no horizonte
habitam bolhas e janelas que se multiplicam por mitose.
Os feridos fogem da escuridão feitos os políticos
E os tigres deslocam seus corações do fogo central
Por que as formigas transportam o azul
E as abelhas, sim, as abelhas fabricam dentes e frutos
E as andorinhas carregam consigo
O calor em suas perninhas cheias de penas.
É costumeiro que o sol da manhã
Seja símbolo da esperança
mas desta vez não. Não é a palavra de ordem
estampada em todos os sorrisos.
III
Nossos crânios são como caixas onde canções ecoam e nossas mentes não as reconhecem como suas. Elas não sabem que nossos sangues foram derramados como lágrimas quentes e salgadas e que nossos olhos saíram de nós aos pedaços e se espalharam pelo chão como os fiéis em um templo.
Que meu pescoço sustente minha cabeça, minha face é uma caixa acústica mas eu não canto.
Meus dentes são trezentos e vinte. Novescentos são meus carros de aço. Cavalos há mais de cem.
Oh répteis, oh centúrias,
Nada me alegra,
Nem mel, nem carne de carneiro, nada... Anêmonas e colônias de corais azuis, vermelhos, multicores e águas-marinhas habitam esse oceano que é minha desconhecida mente. Freqüentemente adoeço do coração, sonho com romances e suicídios e ando nervoso de madrugada por essa cidade luminosa por fora mas tão selvagem e escura por dentro.