Empolgar. Opinar. Palpitar. Tum, tum, tum, Viver. Meu papel é viver. E o que é viver?
Viver é procurar o meu papel na sociedade. Sei que, embora todos sejam diferentes,
todos têm o seu papel, todos têm a sua importância. Um palhaço, um artista, um vendedor
ambulante, um estudante, um professor, um presidente... Todos têm o papel de, juntos,
formar o futuro da nação. Sei, também, que pareço um jovem ‘policarpo’, mas acredito que
estou em tempo de idéias, reflexões... Tenho de aproveitá-las, colocá-las em prática. Se,
para tal, precisarei ser julgado como louco, que o façam, então. Eu não me importo. Faço
parte de uma geração que tem como objetivo principal, não ficar impassível diante das
injustiças, nem que para isso, tenha de ‘enlouquecer’ as regras, mudar constantemente, e esse mudar é corrigir, arrumar, aperfeiçoar. Sinto-me no dever de ser responsável pelos
meus atos e, também, pelas escolhas que faço, inclusive políticas... Mas, tudo isso é tão
teórico – alguém pode estar pensando. Quem disse que o amanhã ainda existirá, ou amanhã
eu existirei? O que fazer, então? Desanimar? Deixar de acreditar? Deixar de existir? Qual
será o meu papel?
O meu papel é o de acreditar e o de lutar. Lutar para que todos tenham as mesmas
chances, as mesmas oportunidades. Lutar para que ninguém tenha de utilizar máscaras nem
artifícios para sobreviver. Aliás, creio que deveríamos lutar também para nós mesmos
fugirmos de todas as máscaras, principalmente as impostas pela sociedade.
Afinal, o que eu menos gostaria, nesta vida, seria de me tornar mais um molde de
pessoas comuns, ser o que os outros gostariam de que eu fosse.
E aí é que reside, às vezes, a minha inquietação, pois sei que para sobreviver e
conviver precisamos de algumas máscaras. E eu não quero usá-las. Eu quero usar a minha
‘cara’, ‘cara lavada’. E isso eu sei que incomoda, atrapalha até. Incomoda-me inclusive,
pois fui forçado a acreditar que, para sobreviver e conviver, eu precisaria de algumas
máscaras. Mas eu não as quero possuir. E penso que se não as possuir, não terei forma, não
conviverei, não sobreviverei. Eu existirei? Filosoficamente, pelo menos, sim. E, desta
forma, me encontrarei como me encontro diversas vezes: face a face com a realidade sob a
qual vive o meu país. Deparando-me com tantas desigualdades responsáveis pela fome,
miséria e violência. E minha alma chorando, querendo assumir sua verdadeira índole de
transparência. Sofro. Vejo pessoas se ocultando por detrás de uma névoa de pureza,
candura, simplicidade, a fim de disfarçar o sentimento de revolta que domina todo o seu
interior. Falo. Grito. Esbravejo. Não sou ouvido. Volto a lutar, abrigando-me, agora, na
imensidão do horizonte calmo e belo, procurando revelar, através das ondas, minha sede de
justiça e igualdade. Deposito minhas lágrimas de derrota no rio de esperanças da vida
desejando atravessar a violenta correnteza de obstáculos que adia a realização dos meus
objetivos.
Alimento-me da força da razão para ocultar a fragilidade e a emotividade de
meu espírito e guardo meu descontentamento diante das injustiças e do meio social.
Construo ao meu redor uma fortaleza de otimismo e determinação para impedir que o vento
do temor destrua meu castelo de sonhos, alicerçado ao longo da minha vida. Espero o
momento certo para agir. Não desisti de lutar. Apenas espero. Olho-me no espelho. E o que
vejo me revela, não o que sou, mas como estou. Vejo-me, face a face com o meu Brasil,
fantasiado de cidadão, almejando, acima de tudo, ser aceito por essa sociedade que,
diversas vezes, assim como eu, se oculta atrás de máscaras conformistas para conseguir