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Redação-->tarde de um dia -- 07/03/2003 - 21:30 (BRUNO CALIL FONSECA) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
São sete horas da tarde de um dia qualquer de 1962. No alto da Cerca Velha, uma turma de crianças planeja suas últimas traquinagens e, no meio delas, eu. Estamos no pátio da igreja que fica no ponto mais alto daquele elevado de serra. A noite será escura. É minguante e a lua clareará pouco. Poucas pessoas passarão por ali. Em algazarra damos por concluído a trama. A vítima já estava definida. Enquanto ela não vem, um mija no pé da cruz, outro sai para badalar o sino, outros para subir na caixa d’água e outros brincam de esconder no pé de cedro.
Poucos minutos depois todos se juntam. Escutam o ronco do motor de uma Rural Willis que sobe o fantasmagórico morro-do-melo. A estrada é curta, mas é íngreme, esburacada e sinuosa. Demorará, no mínimo, oito minutos. É o tempo suficiente pra armarmos a assombração para o senhor Augusto, o meu tio Augusto. É tudo muito bem armado. Um segura uma cabaça perfurada nos moldes de um caveira: com olhos, nariz e dentes encapada com um papel semitransparente vermelho; outro coloca a vela dentro da cabaça; outro risca o fósforo e o mais esperto e corajoso trata de pendurá-la no assa-peixe, bem próximo a rua deserta e escura que meu tio ira passar. Ele passava indiferente àquela assombração e nós nos dávamos por vingados. Tio Augusto havia construindo um pequeno império. E todo imperador tem seus súditos desalmados.
Esta proeza nos custou muitos dias de concentração e planejamento. Não o odiávamos porque nem sabíamos o que era odiar. Éramos apenas crianças. Mas talvez essa fosse a maior vingança que os cercavelhenses pudessem fazer com o tio Augusto. Por que se havia motivação para faze-la, naturalmente, ela vinha das pessoas adultas do lugar. Tio Augusto era muito comentado e provocava ressentimentos. Então os filhos vingavam pelos pais. Relatarei o que ele foi para mim dentro do acho e do presumo. Não tenho a menor pretensão de escrever a história deste augusto Augusto e que, por ser homem, tinha os seus defeitos e adversários os quais, por sua vez, dele diziam coisas absurdas.
Do tio Augusto, nós, as crianças do lugar, pouco nos aproximávamos. Aliás, não dava tempo de se aproximar. Viva a trabalhar incansavelmente nas fazendas de leite e nas lavouras de café. Era político influente e partidário de Magalhães Pinto. Foi em frente à casa dele que pela primeira vez eu vi um avião pousar na terra batida; entrei dentro de um Fusca, comprado de presente para seu filho que se formaria em medicina; e foi no pátio de sua casa que aprendi a andar de bicicleta, na que ele havia comprado para meu primo.
A psicanálise, certa vez ouvi dizer, explica que a nossa memória é propicia a apagar os acontecimentos ruins. Pode até ser verdade. Entretanto, esforço-me e não me lembro de nenhuma vez em que ele, cara-a-cara, pedisse-me que fosse embora de sua casa e, no entanto, nesta mesma época, de outras casas eu me recordo de ser pedido para que me retirasse. É certo que eu não amassava muito barro por ali. Tinha respeito por ele e não medo. Ora, como eu ia ter medo de uma pessoa, se nas noites escuras eu era um dos lobisomens dela.
Não nego que às vezes ficava magoado com ele, por exemplo, quando ele tirava de perto de mim meus dois primos preferidos. Mas era por um motivo justo. Eles podiam estudar fora, nos colégios de internatos. E era passageiro. Nas férias eles voltavam com novidades e o pouco que ficávamos juntos valia para o resto do ano. Eles ricos, e, estar juntos, deles me enriquecia de corpo e de alma, porque com eles eu podia entrar na casa nova e apreciar o quarto de hospede; os quadros da sala de visita; sentar no sofá; no tapete para catalogar figurinhas, dobrar carteiras de cigarros e me absorver no reino encantado da minha imaginação. Uma das minhas calças preferida era de casimira e foi ele quem comprou, ainda que tenha sido primeiro comprada para o seu filho.
Como não achar augusto o meu tio Augusto, se ele me fez viver o mundo da fantasia e sonhar? Foi por causa dele que um avião pousou na minha mente; que conheci as engrenagens de uma máquina e uma caldeira estacionária enorme a vomitar vapor como se fosse explodir o meu mundo. Se o tio Augusto não abria as portas exatamente para mim, ele as abria através de outros. Quando o meu tio Jaime casou, ele foi morar na casinha branca da máquina de limpar café do meu tio Augusto. E lá eu ia para brincar nas enormes pilhas de sacarias de café limpo. Sinto ainda hoje o cheiro adocicado da casca do café. Daí que se meu tio não me colocava no colo também não precisava que colocasse. As coisas que ele tinha, sem que ele quisesse, eram dividas com as demais pessoas. As suas posses me davam informação e conhecimento. Quem num ermo de serra daquele, algum dia, teria a noção do que era uma caldeira e a força das caldeiras, as engrenagens e as escovas da máquina de limpar café, se ele não tivesse uma? Veria, de perto, a elegância de quem usa um terno bem cortado? A garbosidade de um filho médico? Saberia o que era, nas entranhas, uma UDN e PSD? Tio Augusto me fez conhecer, ainda bem criança, o que era um bidê, um vaso sanitário e, ainda que raro, sentir o prazer da água quente que passava pelos canos de cobres naquelas manhas frias do alto da Cerca-Velha. De certo que, direto, tudo que sou devo aos meus pais, mas indiretamente, o pouco dele que tenho se tornou muito como muito se tornou também o que obtive de outros tios.
Se ele não tinha tempo para me dar sorrisos, por ele me dava a minha tia, que sabia esconder ou dissimular bem todas as nossas diferenças. Ela agia como uma diplomata nas trincheiras materiais que separavam as famílias.
São várias as histórias a seu respeito. Conto a que mais gosto, e me enche de orgulho, porque ele a protagonizou por ter o orgulho ferido. Tinha um trator de esteira que quando havia de ser deslocado para fazer estradas nas cavas dos morros da Cerca Velha era transportado por caminhão. O seu caminhão era um GMC ¾ preto e não suportava o peso da máquina. Havia um conhecido que fazia este transporte e sempre o fazia a reclamar e com o maior cuidado para não estragar a carroceria. Até que um dia o amigo transportador comprou um caminhão novo. O tio, necessitado do transporte, o chamou. Houve a negativa. No caminhão novo o amigo não fazia mais o transporte nem que fosse com a carroceria toda forrada de tábuas. Tio Augusto não disse nada. Foi de Rural para a cidade e voltou com um Chevrolet Brasil novinho, mal retirou as laterais da carroceria, encostou-o no barranco, engatou o Fietão, manobrou-o e o dirigiu para dentro da carroceria do seu Chevrolet novo.
Como todos os homens, sabia premiar os seus homens. Eu não me lembro que o meu pai falasse mal dele. Mais do que o dinheiro que o meu pai ganhou com um cartório que ele intermediou, fora o conhecimento da escrita cartorial que, no futuro, lhe dera capacidade para exercer o cargo de tesoureiro em uma prefeitura.
Dois sorrisos dele ficaram gravados em minha memória. Por ocasião da cata e classificação dos grãos do café limpo, e abria o barracão apropriado que ficava perto da igreja. Não precisava anunciar. Bastava o ranger da porta de aço como sinal. Aos poucos ia surgindo um menino daqui outro dali e logo ele fazia a chamada: “Vamos, meninos, vamos matar ratos!” Ratos, pauladas em ratos, ratos por debaixo das pernas, pulos e gritos de meninos e os pulos dele se transformavam numa tremenda algazarra. Quando acabávamos com a matança ele dizia: “O ano que vem tem mais”. Desconfio que aquela era uma das poucas ocasiões em que ele se permitia ser criança.
Tio Augusto morreu cedo, com pouco mais de cinqüenta anos, presumo. Fora acometido de reumatismo. Acamado, sofreu anos e anos com dores no corpo. Gastou, em vão, muito dinheiro com o seu tratamento, a propósito, muito bem acompanhado pelo seu filho médico. Memorizei, também, a última conversa que tive com ele no seu leito de morte. Era ainda um jovem adolescente. Ao chegar à sua frente disse ser eu o filho do Iolando. Ele me deu a mão e um sorriso. Era o segundo sorriso de que me lembrava. Não que ele pouco sorrisse. Mas porque aqueles sorrisos foram especialmente para mim. A segunda vez talvez risse por lembrar das minhas traquinagens e das raivas que já o fiz passar. Era um sorriso verdadeiro.
Os credos dizem que a sua doença veio para pagar os seus pecados. Não acredito. Para comigo, remexo e não consigo encontrar nenhum pecado. Às vezes, o não fazer algo que as pessoas esperam que se faça é também uma maneira de se fazer. São raros os casos de empréstimos entre amigos em que a amizade acaba bem. Ao homem o trabalho, ao franco a esmola. Adoeceu, pelo que sei, nas manhãs de chuvarada, tirando leite no curral. Duvido que tinha tempo para se preocupar com a vida particular de alguém.
Agradeço a Carlos Heitor Cony que escreveu sobre o seu augusto tio Augusto da ilha de Paquetá e fez-me lembrar do meu tio Augusto augusto, posto que era respeitado e venerado e que, em comum com o tio do Cony, houve época em que também cuidava de fornecer água aos habitantes de sua ilha sendo esta localizada a mais de mil metros acima do nível do mar.

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