Não faz muito tempo, dois anos talvez, que, acidentalmente, racharam uma palmeira ao meio. Ela estava plantada num canteiro central que dividia a rua em mão direita e esquerda, bem próxima a um entroncamento de bairro E foi, justamente, quando quiseram alargar o entroncamento para dar maior vazão aos carros que ela foi colhida pela caçamba de uma pá carregadeira que fizera-lhe uma fenda em seu tronco. Terminaram as benfeitorias e não a molestaram mais.
Com o tempo, ao invés de as duas partes se unirem, o tronco murchou e as partes cicatrizaram-se individualmente de maneira que a fenda aumentou, tanto de comprimento como de largura, que possibilitava ver através dela os troncos de outras palmeiras ali plantadas. A propósito, esta palmeira imperial já não fora transplanta com muita sorte. Perto das demais ela era raquítica e barriguda. Todas as palmeiras imperiais têm uma, duas ou mais barrigas, mas a dela era visivelmente decorrente de uma deficiência orgânica. Dava para notar que não tinha raízes profundas, mas sobrevivia e tinha chances de sobreviver por muito tempo, embora não fizesse jus ao seu adjetivo.
A rigor, as palmeiras também são vítimas do crescimento desordenado da cidade. Ao ser chamadas para embelezar os canteiros de rua, há situações em que elas acabam por serem enganadas, ludibriadas. Não vai muito tempo, mal elas fincam as raízes, encorpam as suas copas, renovam a clorofila, alisam o tronco, elas se tornam um estorvo e são arrancadas sem dó. Muitas vezes não chegam a dar frutos. Plantam, transplantam, transportam, armazenam e, se morre, orgânica, a misturam com o inorgânico.
Tanto é que não é incomum ver palmeiras raquíticas e quando altas, magricelas. Esta que acabou de tombar, fui conferir, tinha as fibras amareladas e meio ressecadas. A seiva já não corria por elas. Dava para perceber que estava mole, como se fosse um dente de leite a espera do último puxão. Olhei seu tronco em busca de uma tatuagem indesejada, de frases obscenas, de corações partidos, mas até nestas questões ela fora rejeitada pelo transeunte. Ninguém quis cortá-la com canivete. Para quem só a avistava de longe e de seus carros em alta velocidade, ela era a palmeira que tinha uma parte de seu tronco transparente; para quem a observava melhor, uma palmeira com raízes a mostra, dois corpos e uma só cabeça; e, para quem sabia da fenda, apenas uma palmeira machucada.
De tanto olhá-la, ela me remeteu a uma estaca seca que resistia aos cupins, chuvaradas e raios a mais de meio século. Nela havia também uma rachadura que permitia ver do outro lado, mas esta mal dava para enfiar os dedos. Nela escondia um dormião quando alguém o incomodava por dormir na ponta dela. Ao sentir a presença do intruso caminhante ele voava para o alto e em seguida dava um mergulho, depois uma rasante, exibindo as suas penas pardo-avermelhadas, pretas com manchas brancas e a coleira branca no pescoço e só depois da exibição entrava incólume por aquela fenda, como se estivesse fazendo de bobo aquele que o apelidou de joão-bobo.
O poste parou no tempo. As pessoas do lugar vieram para a cidade fazer a cidade grande. As que ficaram descobriram o pesticida e joão-bobo desapareceu.
Foi esta semana que a palmeira caiu. Não ficou registrado se foi um choque de veículo, já que ela estava fincada bem próximo à rua, ou se foi o vento que a arrancou uma vez que as suas raízes apresentavam sinais de exaustão. Onde principiava a fenda, no tronco próximo ao solo, havia uma mancha escura. Tive a impressão de que era o ninho do joão-bobo. Uma impressão volátil. Logo vi que parte do tronco já havia apodrecido. Apesar das manchas no tronco, a parte em que nascia as folhas e frutos estavam intactas. A possibilidade de encontrar o joão-bobo retomava a minha mente. Aproximei-me mais dela. Rolei o tronco e forcei a rachadura agora quase separada pelo tombo. Não vi nenhum sinal de ninho; forcei mais um pouco e percebi que existia uma parte em decomposição que ao contrário do comum, bem cheirava. Havia sim a possibilidade de encontrar joão-bobo, embora nunca tivesse visto um numa palmeira. Meti a mão naquele amontoados de fibras escuras e ressecadas e deparei-me com um exército de baratas-cascudas que, certamente, ali apenas se escondiam esperando a noite chegar para atacar os latões.
Faz sete dias que ela tombou e continua lá, intacta, sem que alguém do serviço público tomasse providências de recolhê-la. Como esta estirada na grama, ela não atrapalha o trânsito de carro e, por estar num canteiro central de rua destinada só a carros, ela não atrapalha os pedestres. Aquela rua não foi feita para pedestres. Não dá mau cheiro. A sua decomposição é lenta e se confunde com o cheiro da terra. Como chove, ela ainda se hidrata e diz: “me transplanta”.
Se não foi possível comunicar-se com os homens enquanto viva, muito menos quase morta. Ninguém pediu um pronto-socorro, ninguém ligou uma sirene, ninguém quis costurar a sua fenda. Para que gastar tempo com ela. As palmeiras de hoje são precoces e facilmente manipuladas, sejam elas baixas, barrigudas, esbeltas, destinadas a jardins imperial ou presidencial, a alamedas, a parques de nobres ou fundo de quintal. Planta-se e arranca-se. Eu acho que foi por isso que joão-bobo não quis vir para a cidade.
A IMAGEM DO ADVOGADO