Esta mensagem me foi enviada por Nandinha Guimarães e versa sobre uma figura interessante de retórica que todo escritor deve conhecer e sobre a qual Cláudio Moreno nos esclarece.
J.B.Xavier
OXÍMOROS
Cláudio Moreno(*)
"Uma leitora quer saber "o que é oxímoro na Língua Portuguesa".
Minha cara, oxímaro não é um fato expecífico do Português; na
verdade, é uma figura de Retórica Clássica que consiste em combinar,
numa só expressão, dois termos considerados antagônicos, obtendo-se,
com essa expressão inusitada, uma série de efeitos literários e expressivos:
silêncio ensurdecedor, supérfluo essencial, boatos fidedignos, espontaneidade
calculada, mentiras sinceras, crescimento negativo.
O nome vem do Grego "oxus", "afiado, agudo, penetrante", mais "moros",
"tolo", "idiota", e teria sido criado pelos retóricos exatamente para
designar essas expressões sutis e irônicas que parecem, à primeira vista,
pura bobagem.
Como podemos ver pelos exemplos acima, o tipo mais freqüente de oxímoro
é formado pela união de um substantivo e de um adjetivo; existem, no entanto, formas mais extensas de composição, desde aquele lema dos movimentos de Maio de 68, importado pela nossa Tropicália - "É proibido proibir" - até à frase imortalizada pelo pitoresco Chaves do seriado infantil mexicano - "Foi sem querer, querendo". A Literatura tem bons exemplos: lembro o tão citado verso de Fernando Pessoa, "o mito é o nada que é tudo", ou o terrível oxímoro com que Euclides da Cunha define o sertanejo, "Hércules-Quasímodo", ou um dos mais famosos sonetos da lírica de Luís de Camões, todo construído sobre oposições desse tipo, do qual reproduzo a primeira estrofe:
Amor é fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.
Vais encontrar exemplos de oxímoros na literatura de todas as línguas, de todas
as épocas. No cinema, Kubrick usou um oxímoro como título de seu derradeiro
filme: "Eyes Wide Shut" (que Contardo Caligaris traduziu, muito adequadamente, para "olhos arregaladamente fechados"). Quero ressaltar, entretanto, uma interessante invenção da retórica moderna, recurso muito útil para aqueles que gostam, como eu, da ironia sutil: em vez de usar a figura do oxímoro, eu uso o próprio termo, servindo-me dele para extrair, de combinações corriqueiras de palavras, um significado totalmente surpreendente. "Inteligência militar" é uma expresão conhecida e usada sem malícia; no entanto, quando Joseph Heller, no seu romance Catch 22, diz que isso é um "oxímoro", o efeito crítico é devastador porque o autor declara simplesmente que, para ele, inteligência e militar são termos contraditórios, que não deveriam andar juntos. Olha só o veneno: (1) Fulano de
Tal, músico de rock - perdoem o oxímoro! (2) Ontem discutimos em aula o oxímoro "divórcio amigável" ...(3) O título do artigo era um oxímoro moderno: "Sexo seguro". (4) Aquele foi um belo exemplo, apesar do oxímoro, de humildade argentina. (5) A julgar pelo que vemos na TVE, televisão educativa não passa de um oxímoro.
N.B.: A pronúncia é /ocSímoro/, embora o Aurélio XXI e o Houaiss registrem oximoro (rimando com namoro!), Aurélio-vivo (até 2a. edição), Antenor Nascentes, Celso Pedro Luft e outros bambas preferem a forma proparoxítona; fico com eles."
(*) Professor, doutor em Letras, site
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crônica publicada no jornal gaúcho Zero Hora de sábado, 18 de maio de 2002;