Macunaima (Rapsódia) - Mário de Andrade
O livro é constituído no encontro de lendas indígenas (sobretudo as amazônicas, recolhidas pelo etnólogo alemão Koch Grunberg) , e da vida Brasileira cotidiana, de mistura com lendas e tradições populares. O espaço e o tempo são arbitrários, o fantástico assume um ar de coisa corriqueira e o lirismo da mitologia se funde a cada passo com a piada, a brincadeira, a malandragem nacional, que Macunaíma encarna (é o "herói sem nenhum caráter").
A montagem do caráter de Macunaíma, síntese de um presumido modo de ser brasileiro, apoia-se na obra de Paulo Prado, Retrato do Brasil (1926), uma tentativa de definição de um caráter nacional, que Paulo Prado descreve como luxurioso, ávido, preguiçoso e sonhador.
Há também a presença de Freud, na abordagem psicanalista dos mitos e dos costumes primitivos, que as teorias do inconsciente e da mentalidade pré- lógica propiciaram.
"O Herói da Nossa Gente"
Macunaíma é individualista. Faz o que deseja e o que gosta sem preocupações sociais. É vaidoso , necessitando de espectadores e fica satisfeitíssimo quando faz o discurso no Ipiranga "muito gangento" mesmo. Sente vontade de chorar, mas não vale a pena, pois está sozinho e não há assistentes. Fisicamente, tem cabeça rombuda e cara infantil; "carinha enjoativa de pia", e , em pequeno, mostra o defeito dos subnutridos, nos quais a ossificação é imperfeita , pois tem as"perninhas em arco".
Mente com a maior naturalidade: trai seus irmãos, tomando-lhe as mulheres; pratica safadezas gratuitas ou intencionais; joga no bicho; fala os piores palavrões é católico e espírita, mas não dispensa o terreiro de macumba, nos grandes aflitivos. Vive deitado na rede"fumando fava de paricá" para espantar os mosquitos e ter sonhos alegres e gostosos. Pensa encontrar uma panela com dinheiro enterrado. Assim é a figura do grande Macunaíma. "herói de nossa gente"/ Herói de uma tribo amazônica, que o autor misturou a outros , também indígenas e que reinventou como personagem picaresca, sem cortar suas ligações com o mundo lendário. Depois da morte da mulher (Ci, a Mãe do Mato, que se transforma na estrela Beta do Centauro) . Macunaíma perde um amuleto que ela lhe dera , a " muiraquitã" . Sabendo que está nas mãos de um mascate peruano, Venceslau Pietra, morador em São Paulo, Macunaíma vem para esta cidade com os dois irmãos, Maanape e Jiguê. A maior parte do livro se passa durante as tentativas de reaver a pedra do comerciante que era afinal de contas, o gigante Piaimã, comedor de gente. Conseguindo o propósito, Macunaíma volta para o Amazonas onde após uma série de aventura finais, se transforma na constelação Ursa Maior.
A muiraquitã é o próprio ideal do Macunaíma. É o presente do único amor puro de sua vida, o que lhe deu um filho. O menino morto anjinho. Para reconquistá-la empreende viagens , lutando e sofrendo, até que , de posse do talismã regressa à vida sem maldade dos primeiros tempos.
A tentação do sexo a que não soube resistir, faz com que perca novamente a muiraquitã. Então desanima. Sem o talismã, que no fundo , é o seu próprio ideal, o móvel de todas as suas aventuras, o herói reconhece a inutilidade de uma agitação, sem persistência ao seu objetivo. A cabeça cortada, como na lenda caxinauã, resolve ser lua por vingança. Não queria transformar-se em nada que servisse aos homens e por isso vai parar no campo vasto do céu, sem dar calor nem vida. Inútil. Macunaíma vai ter brilho inútil porque ele próprio se julga inútil, desencantado com o inventário que fez de toda a sua vida passada. Continuaria a brilhar, embora sem finalidade nem seriedade, nessa vocação para o brilho puro, sem calor, que Mário de Andrade censurou tantas vezes nos artistas brasileiros. Não é imoral Pertence àquela classe de "seres nem culpados nem inocentes, nem alegres nem tristes, mas dotados daquela soberba indiferença que Platão ligava à sabedoria.