Num suntuoso palácio iluminado pelas tochas presas a monumental colunata, o rei Akabe, antecedido pelo corredor de soldados que delimita o acesso ao trono, expressa sua opulência enquanto observa as dançarinas embaladas pelos tocadores de harpa.
A rainha Jezabel senta-se ao trono ao lado de Akabe. Em vestes de gala emoldurada por uma coroa incrustada de pedras preciosas, a rainha lança um olhar sinistro, quase demoníaco, sobre seus súditos.
Obadias, a frente do trono, cumprimenta os representantes estrangeiros que se aproximam com presentes. Por fim o general sírio, após receber os cumprimentos do anfitrião, presenteia o rei com um capacete de guerra sírio, em ouro.
(GENERAL SÍRIO)
Como representante do rei Ben-Hadad da Síria, ofereço este elmo de guerra ao filho de Onri, o rei Akabe de Israel.
(JEZABEL)
Sinto-me lisonjeado pelo ilustrado presente, general Naamã.
O general afasta-se do trono, acompanhado pelo anfitrião Obadias, quando avista uma linda jovem.
(OBADIAS)
Encantado pela beleza da jovem, general Naamã?
(NAAMÃ)
Seu olhar é triste, porém doce.
(OBADIAS)
Esta é uma vestal de Baal-Zebub.
A jovem usa seus longos cabelos para ocultar-se do olhar incisivo do general sírio.
(NAAMÃ)
Diga-me o seu nome, administrador.
(OBADIAS)
Ela se chama Myra, presente de Osorkon faraó do Egito.
Um cântico pagão, interpretado pela dança das odaliscas, é apreciado pelo rei Akabe e demais olhares atentos.
Percebendo uma inquietação em Jezabel, Obadias aproxima-se.
(OBADIAS)
Tudo transcorre como o recomendado, rainha?
(JEZABEL)
Sinto algo, talvez um mau presságio.
(OBADIAS)
Eu posso ajudar?
(JEZABEL)
Caro Administrador, não compreenderia a profundidade dos meus pensamentos mesmo que os pudesse revelar-te.
Os tambores preconizam o anúncio do grão-sacerdote.
(GRÃO-SACERDOTE)
Que se inicie a Dança de Baal!
Sacerdotes baalins iniciam um ritual formando símbolos pelo posicionamento de seus corpos e espadas. Os turíbulos incensam o ambiente enquanto os dançarinos rodopiam e cruzam suas espadas, intensificando a violência dos golpes pelo ritmo da música e clamor dos súditos.
Durante a coreografia demoníaca, Akabe percebe o desconforto de Jezabel e solicita a aproximação de Obadias.
(AKABE)
O que tem desagradado minha rainha?
(OBADIAS)
Penso que o olhar indiscreto que lanças sobre as dançarinas a deixou enciumada.
(AKABE)
Estarei mais atento para não render-me a graciosidade das odaliscas.
Um homem quase etéreo, envolto por um manto de pele animal, adentra ao salão do trono, passando despercebido pela guarda real.
Diante do trono, o invasor desvela seu rosto lançando um olhar devastador contra o rei e sua rainha. A dança é interrompida e os músicos silenciam, até que os rumores de perplexidade são suplantados.
(JEZABEL)
Quem és tu invasor? Como ousas invadir o palácio de Samaria?
(ELIAS)
Sou Elias de Tisbé - Profeta do verdadeiro Deus de Israel.
(JEZABEL)
Será que nunca me livrarei destes malditos hebreus?
Apontando o rei, o profeta complementa.
(ELIAS)
O Senhor me trouxe diante de ti, Akabe, para admoestar os filhos de Israel.
O profeta volta-se para os presentes e fala com veemência.
(ELIAS)
Segundo a palavra que o Senhor coloca em minha boca, ordeno que não recaia sobre o solo de Israel uma gota sequer de chuva ou orvalho, senão pela palavra que sair da minha boca!
Jezabel ergue-se do trono em galhofas.
(JEZABEL)
Acaso és um bruxo que veio da região de Gileade para vilipendiar o poder de Baal-Zebub a propósito de teu pueril desígnio? Matarei também a ti insolente, como fiz com os 21 sacerdotes de Tirza!
(AKABE)
Guardas. Capturem o invasor!
A guarda mobiliza-se imediatamente. Elias olha diretamente para os olhos da rainha e recente-se da profunda maldade de seu coração.
Envolvendo-se em seu manto de pele animal, Elias torna-se um espectro disforme, confundido os soldados e despertando a histeria de Jezabel.
(JEZABEL)
Seus imbecis, não permitam que o bruxo escape!
Os soldados correm aleatoriamente permitindo ao profeta escapar sem deixar rastro.
Confuso, Akabe não compreende o confronto travado diante dos seus olhos.
Os gritos de Jezabel ecoam pelo palácio.
(JEZABEL)
Seus imbecis...
Deixaram-no escapar...
Akabe se recorda de fragmentos das palavras do ancião cego que o advertira em sua juventude. “...a palavra do Senhor ecoará sobre o Reino do Norte como um relâmpago trovejante que queimará a alma dos ímpios...”