
Ditado do Dia Água dura em pedra mole Até que o calhau esfole!
Acordei calmamente no mesmo sítio como se não tivesse corpo. Esplêndido!... Levantei-me e ataviei minha cápsula corporal num ápice buscando sentir-me o mais depressa possível. Ao entrar no quarto-de-banho logo me apercebi que lá fora o dia estava vestido de cinzento. Então, por dois motivos, o do dia e pelo facto da selecção portuguesa ter perdido ontem, também me vesti de cinzento, fato, camisa, gravata e, sem mais recurso para estar perto da cor, sapatos pretos.
Entrado e sentado no Café Novo, o Berto daí a dois minutos trouxe-me a habitual meia-de-leite com a torrada "bijou" ao lado, estava eu já de olhos e pensamento entregues à leitura do JN, que em primeira página aludia com foto a condizer à decepção do mundozinho portuga.
O café e a cidade estão vivos de mortos. O movimento das pessoas e do trànsito flui em semi-silêncio, numa espécie de tudo-bem e tudo-mal ao mesmo tempo sobre a aparente "mesma coisa" das horas que escorrem no mostrador de todos os relógios de pulso e sem pulso.
Pelo àmplo vidro do recinto onde estou, à porta da tabacaria que há na esquina defronte, vejo um garoto de alça caída, com ar de quem fugiu de casa, a contemplar de soslaio as gajas despidas nas capas das revistas. O Adérito, dono do negócio, tem a mania de seduzir a clientela passante com lautos pares de mamas e rabos em tecnicolor, um chamariz que põe as velhas e os velhos todos olhando para o chão, quiçá para dentro do solo à procura de refúgio na saudade.
Procuro ler algo que me coloque na senda actualizada do estado político do país. O "cara-nas-costas" vai à tarde a Belém apresentar a demissão de primeiro-ministro a Jorge Sampaio, que tem dado a ideia de que não sabe o que há-de fazer, mas sabe e está farto de saber, tanto como eu sei e não faria em idêntica situação. Eu não reconduziria o governo do PSD-PP e entregaria a decisão ao povo. Pelo menos proporcionaria aos meus concidadãos algo em que matutar de novo, uma vez que o Euro 2004 acabou e não há nada que fazer de supérfluo.
Ainda paguei desta feita 1 euro e 15 pelo pequeno almoço e deixei 35 cêntimos de gorjeta ao Berto. Quando vier o próximo aumento, dentro dias, já estou habituado à "mesma coisa" e assim não notarei a diferença, também sempre a "mesma coisa" no decurso dos dias assim. A "mesma coisa"?... Pois!
Torre da Guia = Portus Calle |