Faculdade de direito,aula de Medicina Legal. A professora, médica legista experiente, discorria, com raro brilho, acerca dos métodos para colher as impressões digitais. Comentava, com bastante propriedade, os aspectos morfológicos das impressões deixadas nos corpos de delito: presilhas internas e externas, verticilo... Instava sobre a absoluta necessidade de manter o cenário do crime intacto e da urgência em realizar a perícia no local.
A aula transcorria de forma tranquila, dúvidas eram esclarecidas de pronto, respondidas pela tarimbada mestra.
Ah! Sim! É claro! Em toda turma sempre há um tipo de aluno peculiar, aquele que reserva tempo e criatividade para formular perguntas, ou antes, verdadeiras charadas, impossíveis de responder sem maiores considerações.
E lá estava ele, dando tratos à bola, construindo maquiavelicamente a indagação, a qual, decerto, iria deixar a professora em maus lençóis.
À época não era comum, pelo menos em nosso país,
perícia feita com material genético.
É provável tenha sido este o ponto de partida do nosso especialista em interrogações cavilosas...
Concluída a bem arquitetada armadilha, ele desferiu o enigma, com roupagens de inteira naturalidade: " mas, ó professora, como é que se pode colher impressões digitais de quem tem mão mecànica" ?
Após as costumeiras risadas, nem é preciso dizer que este momento, marcado pela elevadíssima inquirição, assinalou o súbito término da aula.