 As imagens, apesar dos 60 anos decorridos, perduram ainda nitidamente em meu cérebro e, num relance de olhos fechados, revejo as pequenas ruas do Porto, atravessadas de lado a lado e de lés a lés por bandeirinhas em papel de todas as cores, enquanto ali e acolá a miudagem expunha prazenteira a sua pequena cascata, donde retirava o santinho mor da festa e, com ele bem erguido na mão, um dos mais afoitos da maltinha solicitava aos passantes: "- Meu senhor, dê um tostãozinho pró São João".
Daqueles belos tempos e momentos, o que de manifesto improviso ainda vai surgindo da habilidosa alma do povo, já muito pouco resta. A época é outra e a evolução dos meios foi deixando entre a névoa da memória os saudáveis hábitos de viver singela e limpidamente a festa. Hoje em dia compra-se tudo feito e a feitura industrial dos símbolos e apetrechos de diversão tem desde logo o propósito descartável. Os adereços, as vestes, os objectos interventores e os modos de foliar foram quase por completo tomados pela voracidade da inevitável evolução.
Hodiernamente já não se vê uma rusga toda atirada para a frente, tocos de vassoura no ar, tachos, panelas e testos a servirem de instrumentos, com os seus componentes cantando alegremente em uníssono: SÂO JOÃO DO PORTO
E ala, ala minha mana Rita
Em solteirinha eras mais bonita...
E orvalheiras, orvalheiras
E viva o rancho das mulheres solteiras...
E orvalhadas, orvalhadas
E viva o rancho das mulheres casadas...
E orvalheiras em cima do muro
Vamos ao pão quente e ao vinho maduro...
E repenica, repenica
O São João a suar em bica
São João pra ver as moças
Fez uma fonte de prata
As moças não foram a ela
São João todo se mata...
Ai fui ao São João à Lapa
Ai da Lapa fui ao Bonfim
Ai estava tudo embandeirado
Ai com bandeiras de cetim...
Autor:Luiz Eloy SilvaResta deveras ainda, embora o seu conteúdo não saia completo - quem é que se lembra? - a rapioqueira cantiga que acabo de apresentar, cujos versos ouço desde que fui menino-de-gatas e continuo por enquanto surpreendentemente a escutar.
O filho do autor e trovador da letra e da música, Eloy Silva (filho), teve a amabilidade de me remeter os versos originais através de e-mail, quiçá pleno de emoção por constatar que a alma-voz de seu pai logrou espontàneo lugar na memória das gentes tripeiras e aí permanece em lúcida e agradável recordação.
Até ao próximo ano, caro Eloy, se o santinho do nosso terreiro, uma vez mais, não nos dispensar da festa. |