Vai para 32 anos que, sem mais nem menos, fui despojado de tudo quanto lícita e tenazmente tinha conseguido e ganho com o meu exclusivo esforço.
Casado, com duas filhinhas, fiquei sem casa, mobiliário, carro e um terreno de 28 hectares. Com cinco malas e minha poupança bancária, cerca de 4.000 contos - algo como 60.000 reais - de Moçambique regressei a Portugal em Junho de 1974, em consequência da revolução do 25 de Abril.
Dois meses adiante, com uma estranha febre africana, minha filha Paula, com três anos e meio, faleceu. Nenhum banco português me quis aceitar o escudos moçambicanos. Em derradeiro recurso e para não perder tudo, negociei o dinheiro, por um décimo do seu valor, com a Companhia Colonial de Navegação.
Parti para França e logo que arranjei emprego seguro como electricista, vim buscar minha mulher e a minha filha Cristina, então com oito meses de idade.
De quadro administrativo para simples operário num país estranho, a queda foi muito grande. Minha mulher também arranjou emprego para fazer limpezas numa farmácia.
Em Novembro de 1977, minha mulher resolveu ficar com o farmacêutico, que era viúvo, tinha a farmácia para lhe curar o corrimento e um cofre cheio de dinheiro. Quanto a mim, fez muitíssimo bem. Aliviou-me todo o tempo que tive daí para a frente.
Com um par de cornos bem espetados no céu da vida, deixei cair a canga e esperneei uns meses entre copos e mulheres. Voltei para Portugal em 1978, livre de tudo quanto tinha constituído a minha felicidade e a minha desgraça. Em breve retomei a vontade de continuar a viver.
Desde aí e até aqui, onde estou agora, a vida decorreu normal e fluentemente, tendo tido apenas o enorme desgosto de também ter perdido minha mãe, o que mais reforçou a minha liberdade e me deixou de vez em plena independência. Nunca mais quis tomar decisões a sério fosse com quem fosse, nem aceito compromissos que tenham de estabelecer-se a médio ou a longo prazo
Sou pois naturalmente azedo quando estou distraído. Tenho umas mãos-cheias de experiente razão para ser como sou e só eu em consciência é que sei quanto vale a minha razão. De resto, sempre que meto o raciocínio nos estribos e apoio o alento no selim do meu cavalo invisível, sou um brincalhão do caraças.
Levanto-me quando quero, cómo o que quero, vou para onde quero e deito-me sempre que me apetece descansar. Obrigações? Sim, tenho aquelas que não posso evitar, sempre que vou à sanita.
Em suma, aos 66 anos de idade, tenho mais medo da vida do que da morte e estou-me nas tintas para o futuro, plenamente reconciliado com a minha existência.
Sempre que o consciente se me carrega, dê para onde der, descarrego-o de imediato. Os meus lamentos funcionam no mesmo plano da fumarada nos canos de escape e felizmente disponho de um "background" vivencial que, após a minha morte, ainda irá beneficiar muita gente que conheço e não conheço.
Enfim, sou eu, com muita pena de não poder ser desprendidamente todos os outros.
Estou a escrever um livro, romance, "A GUERRA DAS PALAVRAS", cuja inspiração me foi induzida pela vivência virtual na Usina, visando objectivamente o estabelecimento de um padrão que constitua um forte contributo para que a linguagem e a escrita, plena e profundamente livres, funcionem como prévia batalha que desmotive sem infracção a guerra física: insultar até enrouquecer ou partir os dedos sobre as teclas. Tiros? Só com a pistola que acima ilustra este texto. Socos? Só na parede ou no espelho.