Há muito tempo - para um vivo - cerca de 1953, quando então frequentava o terceiro-ano do ensino secundário e comecei a aprender inglês, entre os que comigo andavam no estudo, veio à baila o célebre dito de Shakespeare: "To be or not to be, is the question = Ser ou não, eis a questão".
Pela vida fora, fui ouvindo citar a crucial frasezinha, mas nunca liguei grande importància à profunda eloquência de tão singela e simples equação racional. E não liguei porque o peso da vida, durante os primeiros trinta anos, não pesava coisa alguma sobre meus ombros. O meu físico espiritual, felizmente, passou pelas grandes cargas sem dar por isso.
Todavia, na última década, logo que o panorama existencial começou a adensar-se - menos cabelo e as primeiras vincadas rugas - tenho-me debruçado com devotado interesse sobre a incontornável evidência que os nove vocábulos em inglês afloram, como se de enorme e tortuosa montanha se tratasse.
Sempre fui pessoa de pendor romàntico e impulso sonhador, todo atirado voluntariosamente para a frente e sem muito visionar as sombras do futuro. Assim que passei os cinquenta anos, dei-me por satisfeito com a vida. Tinha conseguido alcançar a triologia que enformava a assunção plena de ser homem: casei, fui pai e escrevi um livro.
Sobre a vida, sem egoísmo a fazer contas, de nada me queixo. A vida foi pra mim o que foi e por enquanto ainda é. Não vale pois a pena gastar muito latim com delongadas explicações.
Estou convencido de que o que se disse ontem evolui amanhã, apresentando-se com outras características, mas fundamentalmente imperando sobre a mesma coisa. Espero pois que a montagem figurativa que acima produzi, sem mais palavras, elucide hodiernamente o bastante sobre o permanecente dito de William Shakespeare.
Som = Solo Tu  |