OS MENSAGEIROS DA HARMONIA
 No café onde todos os dias convivo, me descontraio e distendo o cérebro da preocupante faina do raciocínio íntimo, um dos habituais clientes começou a fazer-se acompanhar por uma ladina e meiga cadelinha que simpaticamente fareja de mesa em mesa, como se de um humano bem educado se tratasse a saudar o pessoal. É interessante verificar como as pessoas parecem melhorar do espírito quando correspondem com uma ternurenta carícia a tão benquisto conviva.
Um dia destes, deu-se a coincidência de me encontrar na cave, no salão de bilhares, onde o referido cliente e a cadelita também estavam. Logo que uma renhida partida, entre dois bons jogadores de "snooker", terminou, subimos todos a escada em direcção ao salão de cima.
De repente, em abrupto ímpeto puxando a trela ao seu dono, um corpulento canzarrão pretendia lançar-se sobre a cadela. Num ápice, baixei-me e tomei a cadela ao colo, enquanto o bicharóco persistia avançar. Surgiu então a surpresa e a novidade, motivo afinal porque escrevo este breve relato.
O dono da cadela, dirigindo-se-me, determinou convicto:
- Senhor Torre, por favor, pouse a cadela no chão.
- Mas, olhe lá, ó amigo, ele (o cão) mata a bichinha...
- Não, não mata. Largue a cadela por favor...
Claro, de imediato debrucei-me e coloquei a cadelinha, a Faísca, no solo.
Bem, fiquei estupefacto. O enorme canino acalmou-se e começou a cheirar ávida e cordialmente o pequenino animal. Daí a pouco estavam os dois em salutar harmonia como se mais ninguém existisse em seu redor.
Caraças, cocei a cabeça e cogitei comigo: - Diacho, eis um gigantesco urso a conviver com uma focazinha. Fechei os olhos e no cérebro passava-me um elefante lado a lado com uma libelinha...
- Ai, santinho, se eu pudesse deitar esta cabeça fora...
António Torre da Guia |