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cronicas-->O guardador de carros -- 03/04/2001 - 12:05 (Roberto Cursino de Moura) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
Pelas ruas da cidade, em locais próximos a restaurantes, bancos, clínicas, etc, é comum encontrarmos nos dias de hoje jovens e até mesmo senhores de plantão, exercendo o ofício de guardadores de veículos. A princípio são pessoas humildes e honestas, defendendo o pão nosso de cada dia, mas muitas vezes, por trás destas máscaras de humildade escondem-se gênios violentos e inescrupulosos, quando não os próprios gatunos. Guerreiam entre si em defesa do território conquistado. Se um ladrão vier a roubar o carro que eles estão "vigiando", desaparece toda a responsabilidade assumida quando o cidadão dono do veículo estacionou naquele local. O objetivo único do guardador é ganhar "uns trocados" e, jamais, proteger o património alheio.

Da mesma forma, estamos sujeitos aos chamados "flanelinhas" - pessoas que limpam o parabrisa dos carros parados nos semáforos, em troca de gorjetas - e aos vendedores de toda espécie de mercadorias, que vão de balas e bombons a travas de segurança contra roubo de automóveis.

Tudo bem. Sabemos estar atravessando um período de grande desemprego e injustiça social, mas não somos obrigados a comprar toda sorte de produtos e serviços que nos oferecem. Quando temos algumas moedas e estamos de bom humor não fazemos objeção alguma e até mesmo pagamos ao guardador e ao flanelinha a gorjeta esperada. O que não podemos admitir é que tenhamos nossos carros riscados, amassados ou mesmo arrombados pelo não pagamento de um serviço que não contratamos. Quando queremos comprar alguma mercadoria ou serviço, costumamos nos dirigir a uma casa especializada. Da mesma forma, quando quizermos resguardar nosso veículo dos delinquentes, o melhor a fazer é utilizar um estacionamento, que nos oferece proteção e seguro.

Certo dia, na Avenida Brasil, estacionei em frente a uma farmácia para comprar comprimidos para dor de cabeça, comprimidos estes que foram providenciais devido à enorme dor de cabeça que eu tive com um guardador:

- Tio, posso olhar o seu carro?
- Não vou demorar.
- Mas é perigoso deixar o carro aqui.
- Já disse que vou sair logo.

A farmácia estava muito movimentada e demorei mais do que o esperado até comprar as pílulas, enfrentar a fila do caixa e depois a do pacote. Quando saí o vidro da janela do meu carro estava quebrado do lado do carona e meu rádio havia sido levado, assim como uma maleta com documentos que estava sob o banco da frente.

Procurei o guardador que foi logo avisando que eu não o tinha autorizado a guardar o carro e que ele não havia visto o lalau arrombar o veículo. Disse ainda que por querer economizar algumas moedas eu tinha levado um grande prejuízo, pois se ele estive olhando, o roubo não teria acontecido e blá, blá, blá...

Só então eu pressenti que ele fazia parte de uma quadrilha, ou que era o próprio gatuno que agia em carreira solo. Levantei os braços e a voz:

- Escute aqui, ó cara! Eu não sou burro! Está na cara que foi você quem fez o serviço!
- Ó tio, você não pode me acusar sem provas!

No bolso de trás de sua calça eu vi uma enorme chave de fenda e um pé-de-cabra, indícios de que tinha mesmo sido ele.

- O que é isto no seu bolso?
- Ferramentas, não está vendo?

O clima estava ficando pesado e já havia uma pequena multidão de curiosos olhando a cena deplorável. Empurrei o sujeito, dizendo:

- Não sou cego, seu fdp!

O guardador, que era um homem alto e forte, revidou ao empurrão e derrubou-me no chão. Ia me espancar quando um policial que estava por perto o impediu. O sujeito disse que eu estava lhe ofendendo e acusando de ter roubado, e que queria fazer uma queixa contra mim na delegacia. O policial prontamente o atendeu, passou algemas em meus pulsos e atirou-me para dentro de um camburão. O guardador foi de carona na cabine.

- Seu delegado, este homem está me acusando sem provas e eu quero dar queixa dele por danos morais.

A minha dor de cabeça havia aumentado e eu não conseguia pensar direito. Desejei acordar e verificar que tudo não passasse de um sonho. Em poucos minutos eu havia passado de vítima a réu. Ao menos o delegado ordenou que me retirassem as algemas. Lembrei-me dos comprimidos e engoli dois deles em seco. Pedi para chamar meu advogado e engoli mais dois comprimidos. O guardador de veículos foi liberado e provavelmente já estava outra vez no seu ponto. Mais quatro horas e eu fui solto depois de levar uma descompostura e de ter sido avisado que o guardador foi complacente e retirou a queixa. Poderia ter me processado por danos morais e discriminação social.

Dias depois, passando por uma travessa da Avenida Brasil eu vi o guardador entregando um rádio nas mãos de um homem que eu reconheci como o policial (desta vez à paisana) que registrara a ocorrência de queixa contra mim. Lembrei-me das algemas, da dor de cabeça e da descompostura. Esfreguei os olhos com as costas das mãos, fingi que não vi, entrei na avenida e nunca mais passei por ali.


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