----- Quando o cansaço me acinzenta o espírito e uma estranha sensação vomencial me percorre a pele, eis-me vestido de nada, leve e pesado, tal como se voasse e rastejasse ao mesmo tempo. O pensamento dilata-se, enorme de vazio, querendo e não querendo raciocinar. Tenho a impressão de que estou a dormir acordado. Sintomas de enojamento perpassam-me a garganta e avolumam-se no estómago, que cresce, cresce, mas não rebenta. Os pés fervem e as palmas das mãos suam. Sinto algumas gotículas, de dentro para fora, a perfurarem-me os poros da testa. Muito mal e muito bem, estados nítidos num mesmo sentido.
----- Olho e ouço muito longe. Ouço e vejo mais longe ainda. Andam por aqui gaivotas e os seus pios melodiosamente tétricos percorrem-me em arrepios quentíssimos e enregelam-me num ápice. Faz calor entre uma brisa subtil que me envolve, única benesse e sinal de que estou vivo.
----- Boa tarde, Jean Paul.
----- Sinto-me na década de 60, emocionante, revolucionário e turbulento. Assisto a grandes mudanças sociais e tecnológicas, assassinatos, a moda explode em ganga, a música asperge-se perfumada de estilos, os direitos civis implantam-se, as mulheres libertam-se, os homossexuais abrem as primeiras janelas. A lua, Jean Paul, recebe as primeiras ferralhas, os vietnamitas perfuram o solo, a liberdade sexual sobe e desce das unhas dos pés à s pontas dos cabelos. Tudo junto, como se me deparasse um gigantesco esgoto e...
----- Será isto a náusea... Jean Paul?!
----------------- Torre da Guia ------------------