Em Lisboa hoje o sol escondeu-se entre sumptuosa claridade. O Tejo, lento de frio, corre luxuriante de espelhos mágicos que surpreendem quem bem olhe para os insondáveis mistérios da luz. Ar gelado, daquele de fazer fumaça com a respiração.
As mãos dos namorados contorcem-se na despedida, mãos e lábios. Que bom, ainda há namorados, ainda há amores de domingo a domingo, aqueles eternos amores que o quotidiano impede de se unirem de imediato livremente. Hoje em dia, unir amor, é como encetar uma grande viagem para o fim do mundo.
Os néons catrapiscam por toda a cidade, quase vazia. Um bom economista, se fosse bom no ofício do cálculo, mandaria apagar tudo isto. Afinal, para que é que se gasta tanta energia em vão. O sol, por exemplo, é muito mais arguto e previdente: escondeu-se aqui de nós e foi iluminar outras gentes.
Este pormenorzinho, o da luz, que nos dá cabo de grande parte da economia, sobeja-me para entender a predação em que o humano vive.
E assim me fico perante uma noite de Domingo a matutar nos invisíveis amores que não precisam de luz para se amarem...